sábado, 21 de abril de 2018

ÍNDICE PARA CELULARES

ÍNDICE ALFABÉTICO PROSA E POESIA

ÍNDICE DOS TEXTOS EM PROSA

POESIAS- ORDEM ALFABÉTICA

LITURGIA DIÁRIA- diariamente as leituras da missa com comentário.

A FELICIDADE DO CÉU



Nós vivemos buscando momentos de felicidade: um churrasco com os amigos, uma festa, passeios, viagens, o contato com os filhos, a alegria que um casamento feliz proporciona, o cheirinho gostoso de um carro novo, umas doses de bebida... e tantas outras coisas mais. 

Alguns, entretanto, chegam a roubar e a desviar verbas para terem mais e mais dinheiro, outros assassinam, vendem-se a outros com ligações financeiras que acabam com os sonhos de felicidade de muitas pessoas que trabalham duramente para conquistarem um lugar no mundo, e vocês sabem o que mais. 

Já ouvi muitas vezes pessoas dizendo que o Céu deve ser chato, e que lá não deve haver nada para fazer. Preferem a terra, esta miserável terra, apesar de suas dores e aflições. São poucos e fugidios esses momentos de felicidade. Aliás, nem são assim tão intensos! São momentos que passam logo! 

Pois hoje, na Hora Santa, lembrei-me de lhes dizer que não é assim. No Céu, para onde todos nós pretendemos ir, mesmo aqueles que amam os prazeres desta terra, a felicidade não é passageira e momentânea como aqui, mas E-T-E-R-N-A! 

A felicidade que às vezes sentimos aqui na terra, lá é perene, nunca termina! É como... Bem, eu pensei em tantas comparações, mas não há como comparar com coisas desta terra. São Paulo foi levado ao Céu, numa visão, mas não sabia descrevê-lo com palavras humanas. Jesus veio do Céu para nós, mas apenas deu-nos uma ideia com exemplos de seu tempo, por meio de parábolas. Não há, em nenhuma língua aqui da terra, palavras que descrevam a felicidade do Paraíso. 

A contemplação de Deus é a máxima felicidade que podemos ter. Quando criou o mundo, Ele nos deu a possibilidade de partilharmos alguns desses momentos de felicidade, mas a total ocorrerá apenas após a ressurreição final. 

Que pena se não tivermos isso em nossa mente e em nosso coração! Vale a pena todo e qualquer tipo de luta que precisemos enfrentar para sermos dignos de entrarmos na Celeste Mansão! 

Mas lembremo-nos sempre de que sem a graça divina, nunca conseguiremos. Jesus deu a vida para nos salvar, mas temos que fazer a nossa parte. Nossa parte, nossa principal obra é, como diz o Pe. Paulo Ricardo, CRER, aceitar a ação de Deus em nossa vida, com muita humildade, sem condições, sem querermos fazer “negociata” com Deus. Deus não se deixa enganar. Ou aceitamos suas condições, ou ficamos com nossas próprias forças e nada conseguiremos. Se não aceitarmos Deus, Ele respeita a nossa escolha, mesmo não sendo isso que deseja, porque nos ama infinitamente, mas nos deixa às nossas próprias forças. Isso é terrível! Muitos vivem nessas condições: vivem apenas à base de si próprios. Deus olha para os sofrimentos e decepções dessas pessoas, mas nada pode fazer. Não porque não tem poder para isso, mas porque não entra em nossa vida se não o permitirmos. 

“Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e me abrir a porta, entrarei em sua casa e cearemos, eu com ele e ele comigo”. (Apocalipse 3,20).

Teófilo Aparecido de Jesus, 21/04/2018

quarta-feira, 14 de março de 2018

SOMOS A CARTA DE CRISTO



Diz o trecho de 2 Cor 3,3:

"Não há dúvida de que vós sois uma carta de Cristo, redigida por nosso ministério e escrita, não com tinta, mas com o Espírito de Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, isto é, em vossos corações."

Qual é o alcance dessa frase: “Ser uma carta de Cristo”? Eu ouvi uma homilia sobre isso pela primeira vez nos anos 70, pelo administrador apostólico da região Leste II, São Paulo, Francisco Massant. Impressionou a todos, pois quase nunca prestamos atenção a esses “detalhes” da pregação de S. Paulo Apóstolo.

Ser carta de Cristo implica em muita responsabilidade de nossa parte: vida íntegra, sem desânimo, reerguer-se sempre quando pecar, confiar sempre e totalmente na Graça de Deus, amar a todos, partilhar com os mais necessitados, estar sempre à disposição para praticar a caridade, seja ela material ou espiritual, praticar a própria religião, ou seja, se for católico, ir sempre à Missa, participar efetivamente dela e não apenas estar de “corpo presente” como em Missas de defunto, participar de algum grupo comunitário etc.

Para conseguir tudo isso, ou seja, para ser uma verdadeira carta de Cristo, devemos amar a oração e dedicarmos a ela uma boa parte de nosso dia. Sem a oração, diz o bispo emérito Dom Angélico Sândalo Bernardino, nós viramos bichos. Dizia um padre de minha infância, o Pe. Antônio Maffei, que quem não reza para dormir nem levantar-se, “deita burro e levanta cavalo”.


É isso aí. Sermos cartas de Cristo para o mundo todo, mas principalmente para as pessoas que nos rodeiam. E se passarmos uma parte de nossa vida como “carta devolvida”, vamos tomar novo fôlego, confessarmo-nos, retomar nossa vida, perdoarmo-nos, e estarmos certos de que Deus sempre perdoa a quem pede perdão e nos concede nova chance de sermos santos. E ele nos reenviará como cartas autênticas dele.

segunda-feira, 12 de março de 2018

POESIAS 124


12/03/2018
OÁSIS

O caminho é de pedras
que ferem os meus pés,
o horizonte é sombrio,
esconde a esperança!
O sol, escondido,
se recusa a me aquecer,
o frio de minha alma
congela o meu coração.

Nada à vista,
nenhum pássaro,
nenhuma flor,
nenhuma árvore.

O único Oásis
que vejo possível
é teus braços,
que me amam,
que me confortam!

sábado, 10 de março de 2018

A SIMPLICIDADE

INTRODUÇÃO

Este é um tema muito difícil, pois são muitas as interpretações desse assunto na Bíblia.


Atualmente a simplicidade e a pobreza ganharam novas formas de serem vividas, diante da parafernália de veículos de comunicação, entretenimento e trabalho.


Apresento aqui reflexões pessoais sobre esse assunto, baseado na Bíblia, e cada um aplique como puder em sua própria vida. Tudo o que é radical e exagerado não é aconselhável. Um dos problemas que vejo em minha vida e em geral é que perdemos muito tempo com muitas coisas que não são tão necessárias como pensamos que sejam, e deixamos várias outras coisas, essas sim importantes, de lado.


A correria da vida atual se une às dispersões de tempo com essas coisas desnecessárias de que falei, e acabamos não tendo tempo para a oração, para a família, para um pouco de lazer mais saudável etc.


Dificilmente alguém consegue viver uma pobreza radical hoje em dia. O próprio Cristo, ao falar aos setenta e dois discípulos que fossem pregar o evangelho despojados de tudo, disse-lhes que aceitassem o que lhe oferecessem como alimento, e entrassem na primeira casa que lhes desse hospedagem. Eis aí a simplicidade: eles não deviam ficar escolhendo a casa que achassem mais bonita, mais limpinha; entretanto, podia acontecer que a primeira casa que os acolhesse fosse uma casa de pessoa abastada...


Espero que as meditações aqui apresentadas ajudem você a revisar a própria vida, mas sem nenhum exagero: simplicidade, para encontrar Deus (Sabedoria 1, 1-5), pobreza para acolher o irmão.


A SIMPLICIDADE


O livro “ A Imitação de Cristo”, do século 13, diz no capítulo 18 do livro 4 : “Ó bem-aventurada simplicidade, pela qual deixamos de lado as vãs discussões para andarmos no caminho plano e firme dos mandamentos de Deus!” . . .


Antes dele, o livro da Sabedoria, capítulo 1, versículos de 1 a 5, já flava que os simples conseguem obter a revelação da pessoa de Deus. Ele se revela aos simples e aos que não o põem à prova.


Simplicidade significa, portanto, antes de tudo, confiar em Deus plenamente, deixando em segundo, terceiro ou mesmo último lugar aquilo que nos dá prepotência sobre os outros, ou uma situação financeira privilegiada, abandonando completamente tudo o que nos pode separar de Deus, tudo o que for supérfluo e secundário . As coisas que não puderem ser renunciadas, não se apegar a elas, porque um dia nos “deixarão na mão”, como o povo fala. (Você pode encontrar o livro " A Imitação de Cristo" no site abaixo, só bastando clicar:




Quando uma pessoa perde a liberdade de uma forma ou de outra (pela prisão, por exemplo, ou pela doença), tudo, tudo mesmo, o que norteava sua vida muda de lugar em sua escala de valores. Coisas que ocupavam o primeiro lugar de sua atenção passam a lugares mais últimos e vice-versa.


Mesmo na prisão ou num leito de hospital vemos como as coisas são relativas. Se a pessoa mora num lugar escuro e insalubre, sem higiene, e muda-se para outro um pouco melhor, parece que entrou no paraiso! O doente, ao sair do hospital para sua casa, acha que ganhou na loteria.


Tudo é relativo e secundário se colocamos como nossa meta principal o Reino de Deus. Dizia São Tomás de Aquino: “É melhor andarmos mancando (claudicando) no caminho certo do que correr no caminho errado, pois só chegaremos ao paraiso se estivermos no caminho certo, estejamos correndo ou mancando”.


Nos sofrimentos e nas dificuldades, nas coisas que tiram a nossa liberdade, como a pobreza extrema, nós nos encontramos com a realidade da vida, nua e crua. As ilusões e as mentiras se desfazem como fumaça. Uma das consequências é que passamos a sentir um tipo de algeriza por tudo aquilo que não agrada a Deus. Entretanto, antes de “cairmos na real”, ou seja, de percebermos que a vida é curta e é também cheia de surpresas desagradáveis que se alternam com as agradáveis, entramos em crise, nos desesperamos, nos desiludimos, e aí nos restam poucas opções.


A opção que mais nos leva a uma santidade de vida e à felicidade é aceitar o fato de que somos pecadores e considerar sinceramente os próprios pecados, atuais ou passados, incluindo aí tudo o que fizemos de errado ou todo o bem que deixamos de fazer. Em seguida, começarmos uma vida nova, de simplicidade, de confiança ilimitada em Deus, uma vida real, de “pés no chão”, de misericórdia, humildade, confiança, de muito amor, de vigilância e oração.


Quando estamos livres e com saúde, adquirimos necessidades supérfluas, necessitamos de uma montanha de coisas para viver. Quando ficamos doentes ou sem liberdade, percebemos que não precisamos de nada daquilo. Passamos a viver com bem pouca coisa.


Quantas coisas inúteis e/ou supérfluas vamos agregando ao fardo que levamos às costas! É um fardo pesado, constrangedor, deprimente, cansativo, que nos leva a um enfado, a um descontentamento e a uma aversão ao ritmo que estamos dando a nós mesmos.


O ser humano só se sacia em Deus e em ninguém mais! O milionário nunca se fartará de dinheiro! O glutão nunca se fartará de comida! O irritadiço nunca se acalmará! Os vícios, o uso doentio das coisas supérfluas, nos levam a uma tristeza conosco mesmos, a um desânimo de viver que muitas vezes conduzem ao suicídio. A paz só vem de Jesus. Só ele pode nos libertar de nós mesmos, de nosso fardo pesado. É Jesus quem nos diz:


“Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos.(...)Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas, porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve”. (Mateus 11,25.28-30).


A simplicidade nos leva a ser pobres em espírito e puros de coração (Mateus 5,1-8). Quando entramos em crise ao nos lembrarmos de quantas coisas no passado deixamos de fazer pelos outros, principalmente pelos nossos pais e pessoas mais achegadas, pelas vezes que não demos testemunho de nossa fé, devemos pedir perdão e gravar em nosso coração como disse S. Paulo:


“Deus é poderoso para realizar por nós, em tudo, muito além, infinitamente além de tudo o que pedimos ou pensamos”. (Efésios 3,20).


Essa convicção vai nos tirar da depressão, do estresse, vai nos dar alívio, se nos colocarmos nos braços do Pai, que, poderoso, poderá nos purificar e conduzir a nossa vida por um caminho de confiança e de esperança.


Se Deus é assim tão poderoso, ele pode também ser todo misericordioso, como diz Jeremias 31,3:


“Eu te amei com um amor eterno; por isso guardo por ti tanta ternura!”


Por isso tenhamos certeza de que ele nunca nos abandonará, se deixarmos que ele tome conta de nossa vida, como diz Isaías 42,16;


“Eu nunca hei de abandoná-los”


E em Isaías 49,15:


“Mesmo que a mãe se esqueça do filho que gerou, ou deixe de amá-lo, eu jamais me esquecerei de ti!”.


Ou ainda em Isaías 66,13:


“Qual mãe que acaricia os filhos, assim também eu vou dar-vos o meu carinho”.


Se estivermos dispostos a deixar os pecados e nos aproximarmos de Deus, ele nos perdoará nossos pecados, conforme lemos em Miquéias 7,19:


“Ele vai nos perdoar de novo! Vai calcar aos pés as nossas faltas e jogará no fundo do mar todos os nossos pecados”.


Se formos inteligentes vamos perceber que a melhor saída, a melhor solução é confiarmos em Deus permanentemente e totalmente! Sta. Teresinha já dizia isso, em palavras parecidas com estas:


“A lebre, ao ser perseguida pelos cães, refugia-se, assustada, nos braços do caçador”.


Eu acho essa frase magnífica! Na crise de desânimo, de enfado, de repugnância por tudo, e às vezes até por nós mesmos, precisamos e podemos, para nos livrar de um Deus-Juiz, nos refugiarmos e pedirmos ajuda no Deus Salvador e misericordioso”. Vendo que não há outra saída, ou seja, que não dá para nos livrar do perigo, refugiemo-nos nas mãos do próprio Juiz enquanto estamos vivos e nesta terra! Enquanto estivermos por aqui, ele não é juiz: ele é salvador. Um modo bem prático de fazer isso é colocar diante dele todo o nosso passado, mudando a direção de nossa história para uma meta mais santa, ou seja, em direção ao paraíso, e obteremos novamente a paz para a nossa vida


A POBREZA



A simplicidade só é possível se acreditarmos que Deus está presente ininterruptamente em nossa vida, e por isso não corremos feito doidos atrás do dinheiro, como diz Hebreus 13,5-6:


“Que o amor ao dinheiro não inspire a vossa conduta. Contentai-vos com o que tendes, porque ele próprio disse: 'Eu nunca te deixarei, jamais te abandonarei'. De modo que podemos dizer com ousadia; 'O Sr. é meu auxilio, jamais temerei; que poderá fazer-me o homem?”


Se amamos o dinheiro sobre todas as coisas, nunca viveremos a simplicidade, o amor gratuito e generoso a Deus e, consequentemente, às pessoas. Sabendo que Deus nunca nos abandonará, como vimos nesses trechos àcima, vamos viver uma gostosa despreocupação pelo que vai nos acontecer. Seja o que for que nos aconteça, Deus está presente e vigiará para que tudo saia bem, embora por agora pareça tudo esquisito e tormentoso. Nunca estamos sozinhos, se estivermos confiantes em nosso Criador e Salvador. É Mateus 6,19-34 que nos diz isso, culminando com os versículos 33 e 34:


“Buscai, pois, em primeiro lugar, o reino de Deus e sua justiça, e todas essas coisas vos serâo dadas em acréscimo. Não vos preocupeis com o dia de amanhã. O dia de amanhã terá suas próprias dificuldades. A cada dia basta o seu fardo”.


Mesmo na evangelização buscaremos os meios pobres, os meios mais simples, se confiamos em Deus, como fazem os que seguem a espiritualidade do Beato Carlos de Foucauld, cujos escritos você encontra neste mesmo blog, no índice. Muita parafernália na evangelização acaba impedindo, podemos dizer assim, a ação do Espírito Santo. Quando S. Paulo Apóstolo falou no aerópago de Atenas, usou a sabedoria e depois se arrependeu disso. Dali em diante, procurou pregar mais com a inspiração e a ajuda de Deus do que com os recursos de sua ciência.


Dizia o beato Carlos de Foucauld que devemos não apenas proclamar, mas “Gritar o evangelho com a própria vida”. S. Paulo Apóstolo percebeu isso como ninguém, ao dizer que “Quando sou fraco, aí é que sou forte” (2ª Cor. 12,10). E é isso mesmo, pois se eu me acho forte, vou fazer tudo por mim mesmo, sem depender muito da ajuda de Deus; entretanto, se eu admitir minha fraqueza, vou confiar e pedir a ajuda divina, e Ele me ajudará. O salmo 126(127) é bastante esclarecedor nesse assunto, quando diz:


“Se o Senhor não construir a casa, é em vão que os construtores trabalham”. E ainda Mateus 12,30: “Quem não está comigo, está contra mim; e quem não recolhe comigo, espalha”. Por isso, a coisa mais inteligente que podemos fazer é pedir a ajuda de Deus e nunca agir confiando em nossas próprias forças!


No Antigo Testamento temos muitos exemplos disso que estou falando: quando o povo confiava na ajuda de Deus, vencia a batalha; quando confiava apenas nas proprias forças, perdia. Confira, se quiser, estas passagens:


Davi e Golias (1ªSamuel 17,50-51);


Sansão e os filisteus (Juízes 16,28-29);


A queda dos muros de Jericó (Hebreus 11,30 e Josué 6,14-20);


Gideão vence com 300 homens, depois de escolher entre 32 mil (Juizes 7,7);


Já no Novo Testamento temos a parábola do homem que teve de pensar antes de começar a casa e que não iria conseguir terminar, em Lucas 14,28-33, incluindo a parábola do rei que devia checar se conseguia vencer o inimigo com o seu exército ou não. A conclusão, magistral, está no versículo 33:


“Qualquer de vós que igualmente, portanto, não renunciar a tudo o que possui, não pode ser meu discípulo” (Lucas 14,33).


Renuncia a tudo o que possui. O que você entende por isso? Será que não está incluido títulos, prêmios, vantagens, privilégios, autossuficiência, recursos extraordinários, dinheiro supérfluo, vida cômoda em detrimento da pobreza dos outros, burguesia, recursos a outras forças espirituais escusas, não cristãs, e tantas outras coisas parecidas. Se não renunciarmos a isso tudo, ou seja, se não confiarmos primeiramente em Deus, em nossas ações e procedimentos, vamos trabalhar sozinhos, feito bobos.


É bem marcante a ordem dada a Lucas 9,1-6; “ Não leveis para a viagem nem bastão, nem alforje, nem pão, nem dinheiro, nem tenhais duas túnicas”. Os comentaristas dizem que isso era para que os apóstolos ficassem mais livres para agir, menos impedidos ou amarrados a coisas materiais. Hoje em dia é a mesma coisa: desimpedidos de tudo, a evangelização se torna mais eficaz, por não ser baseada em nossos meios, mas na força e na ação de Jesus Cristo. Deus nos fornece tudo o que nos for necessário.


Em Lucas 12,33-34 vemos uma realidade ainda maior: “Vendei vossos bens e dai esmola! Fazei bolsas que não fiquem velhas, um tesouro inesgotável nos céus, onde o ladrão não chega nem a traça rói. Pois onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração”.


A riqueza, a avareza, o medo do desconhecido, que nos leva a acumular bens e a procurar viver uma vida mais complexa, em que abastecemos nossos estoques materiais, sociais, afetivos, humanos, mentais, espirituais, pode ser até uma idolatria, como fala Lucas 12,13-21;


“Tomai cuidado com todo tipo de ganância, porque mesmo que alguém tenha muitas coisas, a vida de um homem não consiste na abundância de bens” (v.15). E Jesus diz ao homem que queria destruir seus celeiros para construir maiores: “Louco! Ainda nesta noite pedirão de volta a tua vida. E para quem ficará o que tu acumulaste?” (v.20).


Ainda Colossenses 3,5: “Mortificai (...) a cobiça de possuir, que é uma espécie de idolatria”. E em Efésios 5,5: “O avarento – que é como um adorador de ídolos...”. Diz- nos também Eclesiastes 1,2; 2,21-23: “Vaidade das vaidades(...) tudo é vaidade(...)!”.


Quando morremos as pessoas da família se apossam do que tínhamos ou simplesmente jogam tudo fora, se ali não encontram coisas que rendam dinheiro. Quantas coisas acumuladas durante anos, e num instante vão para o lixo. Quantos pecados de ira, irritação, maledicência, inveja, apegos, avareza, fizemos para acumular essas coisas! Quanto tempo perdido! Num instante, deixam de existir. Quantas orações, caridade, atos de fé, prática da fé, sobriedade, amor verdadeiro e gratuito, lazer justo e necessário, férias, estudos, curtição dos filhos, do(a) esposo(a), dos filhos nós deixamos de lado para amontoarmos coisas inúteis!


São João Crisóstomo, entre os anos 349-407, fala sobre o fato de que muitas vezes gastamos fortunas em embelezar os templos e deixamos o outro morrer de fome (2ª leitura do sábado da 21ª semana do tempo comum, of. das leituras). Eis uma parte do texto:


"Que proveito haveria, se a mesa de Cristo está coberta de taças de ouro e ele próprio morre de fome? Sacia primeiro o faminto e, depois, do que sobrar, adorna sua mesa. Fazes um cálice de ouro e não dás um copo de água? Que necessidade há de cobrir a mesa com véus tecidos de ouro, se não lhe concederes nem mesmo a coberta necessária? Que lucro haverá? Dize-me: se vês alguém que precisa de alimento e, deixando-o lá, vais rodear a mesa, de ouro, será que te agradecerá ou, ao contrário, se indignará? Que acontecerá se ao vê-lo coberto de andrajos e morto de frio, deixando de dar as vestes, mandas levantar colunas douradas, declarando fazê-lo em sua honra? Não se julgaria isto objeto de zombaria e extrema afronta?” (Veja o texto todo clicando aqui:(http://liturgiadashoras.org/oficiodasleituras/21sabadoTC.html)


Faço aqui um pequeno silêncio para refletir sobre os imensos gastos que se fazem com construções e acabamentos luxuosos de igrejas, salões e casas paroquiais, e a miséria que se empregam para favorecer a formação de líderes comunitários instruídos e formados nas ciências necessárias para um apostolado eficaz no meio do povo, sem falar ainda do abandono em que muitas famílias se encontram. Será que essas luxuosas construções estão agradando a Deus?


Quero ainda deixar uma palavrinha sobre a parafernália de coisas que tiram nossa atenção durante o dia. O Eremita de Jesus Misericordioso deve prestar atenção de não perder muito tempo com rádio, tv, de modo exagerado. O Pe. René Voillaume (morreu em 2003), disse que uma pessoa que fica horas a fio diante da TV, dificilmente terá disposição para rezar. E é isso mesmo! A tv, mais até que o rádio, nos toma muito mais tempo do que percebemos. Também provocam muitas vezes alguma superficialidade no modo de pensar e de julgar os acontecimentos e as coisas.


Posso até arriscar dizer que somos o que vemos e ouvimos. Se formos fãs assíduos desses veículos de comunicação e não temos outras fontes de informação, vamos acabar pensando, mediocramente como eles. Conheço uma pessoa tão viciada em novelas que até nos velórios que vai pede para ver a novela numa vizinha do velório. É impressionante!


Nós, eremitas de Jesus Misericordioso, devemos aprender a nos controlar diante dos meios de comunicação social e adquirirmos uma visão crítica em relação a eles. A propaganda que fazem de coisas supérfluas vai diretamente contra o que os cristãos devem pensar e desejar.


Curtir o silêncio é muito importante para nossa vida espiritual. São Francisco de Salles dizia, já no século 16: “As pessoas se entopem de barulho para não ouvirem a voz de seu coração”. Há um artigo muito bonito neste blog sobre o silêncio e o deserto, do Dom Edson Damian, de S. Gabriel da Cachoeira. Deem uma lida e irão gostar!


O silêncio e o despojamento: duas coisas muito evitadas, atualmente, por causarem insegurança e, ao mesmo tempo, uma tomada de atitude às vezes drástica diante da vida. Diz Oséias 2,16: “Vou levá-la ao deserto e aí lhe falarei ao coração (ou: vou conquistar seu coração)”. O deserto é o lugar da simplicidade conseguida no despojamento total e na solidão!


O problema é aprendermos a fazer silêncio num mundo tão conturbado como este. O silêncio não deve ser apenas dos sons, mas dos ruídos internos, como das nossas fantasias. É muito difícil vencer e saber contornar as fantasias, mas com paciência, oração e jeitinho a gente consegue substituir as fantasias indesejáveis por pensamentos bons e santos. O segredo é não tentar abafar as más fantasias, mas substituí-las por outras boas e santas.


O vazio que se faz ao nosso redor e no nosso interior, nós o preenchemos com a presença da graça de Deus! Maria é cheia de graça porque, em sua simplicidade, esvaziou-se do orgulho e de si mesma. (Lucas 1,47-48). Diz o Salmo 131(130):




“Senhor, meu coração não é ambicioso(...). Eu fiz calar e repousar meus desejos” (silêncio interno).”Como criança desmamada no colo da mãe” (desmamada porque não procura mais o peito. Está no colo da mãe sem outra intenção que a de estar ali, no aconchego do colo, e não com o interesse de mamar!)

VELHICE


nov 2013

Eis um artigo que posso escrever sem consultar, nos meus quase setenta anos de idade. Talvez seja um artigo mais próprio para os jovens do que para nós, idosos, pois muito do que fazemos na infância, adolescência e juventude é a causa de nossas agruras e alegrias na velhice.

Há muitos idosos que adoecem mesmo tendo uma juventude sóbria; são os mistérios inevitáveis de nossa id. A esses, eu diria apenas que procurem lutar sempre, sem desânimo, para readquirirem uma saúde pelo menos razoável. Entretanto, acredito que nos intervalos dos achaques possam também ser felizes e, apesar dos sofrimentos, vivam em paz. Se essa paz vier de Deus, sempre podemos ser felizes.

É mais comum haver uma velhice problemática entre os que abusaram do cigarro, bebida, alimentação (sal e gordura) e outros itens maléficos; há, porém, muitos idosos sadios mesmo entre os que abusaram de tudo. Mais uma vez são os mistérios da vida. 

Outro ponto para lembrarmos é que para os que constituíram apenas uma família, a velhice se mostra mais agradável do que para os que constituíram duas ou mesmo três famílias diferentes (separaram-se e casaram-se novamente). Mas nem isso é constante: muitos que só possuem uma só família moram em asilos, são abandonados, ao passo que muitos com várias famílias vivem amparados.

Um padre do Chile, Pe. Álvaro Gonzales, da pastoral universitária, dizia num retiro que "Shalom" significa: "No meu coração tenho um lugar para você". Essa é a paz partilhada. 

A paz na velhice nos envolve quando:

-assumimos nossos erros e pedimos perdoa, como um ato de oferecimento e de amor a Deus.

-recomeçamos diariamente nossa vida.

-enxergamos a estrada que ainda temos que trilhar iluminada pela luz divina.

-buscamos a felicidade ou mesmo a conversão e a mudança para melhor dos nossos inimigos.

-perdoamos de coração aos que nos prejudicaram.

-ao acordarmos, sentimos que Deus nos colocou em seus braços, nos alimentou com o Corpo e o Sangue de seu Filho, nos colocou uma blusa para que não sentíssemos frio, um sapato nos pés para não nos ferirmos, uma água fresca em nosso cantil, um boné para quando começasse o sol, uma luz para nos iluminar nas trevas, um lanche em nossa mochila, uma caixa de pronto-socorro para nossas quedas, uma música gostosa para nossos ouvidos, o doce de que mais gostamos nos esperando no final de nossa caminhada...

Aí, então, não há motivos para não nos sentirmos felizes! A velhice se torna uma etapa gostosa em nosso final de vida!

Uma coisa boa da velhice é que podemos tirar as nossas máscaras e não termos mais medo de nos mostrar como somos! Também podemos nos comunicar sem medo algum de cometermos gafes, pois quase todos nos perdoarão; todos nos pouparão esforços, quase todos nos chamarão de "vovô".

Quase nada não mais nos escandaliza, e nos tornamos indulgentes para com tantos erro e bobagens que os mais novos cometeram. 

Nosso passado vira contos fantásticos, que narramos para os nossos netos e demais pessoas novas. As piadas antigas se tornam novam para os que nunca as ouviram"

Certos gostos nossos são prontamente realizados "antes que ele morra com vontade disto ou daquilo", como os mais novos comentam. 

Como a morte nos está próxima, tudo o que existe perde a importância, e a pátria celeste se torna o nosso anseio, nossa meta final e tão próxima!

Revemos o nosso passado, pedimos perdão do que erramos e do que poderíamos ter feito e não fizemos.

Levanto-me de manhã, cruzo as mãos para trás, respiro o ar fresco da manhã, olho o nascer do sol, e sorrio: tenho o dia todo para trabalhar devagarinho ou simplesmente para não fazer coisa alguma. E na brisa suave, elevo o meu pensamento para Deus...

As agruras da velhice são minimizadas ou até superadas quando aceitamos totalmente nossos limites, quando somos conscientes de que não temos mais aquele vigor da juventude, nem a rapidez de raciocínio de nossos vinte anos!

Não percebemos a velhice dentro de nós: a alma nunca envelhece; só o corpo. Sabemos que envelhecemos porque nos olhamos no espelho e somos chamados de "senhor", de "vovô" e coisas semelhantes.

É por isso que é necessária uma conscientização constante de que os outros nos veem como parecemos: um velho de 70, 80 anos; nós nos vemos como nossa alma é: um garotão de vinte e cinco anos. Eis o perigo!


Nossa Senhora sempre que tem aparecido aqui e ali (Fátima, Lourdes, Salete, Medjugorje, Guadalupe), não aparenta mais do que 17 anos de idade: essa deve ser a idade com quase ressuscitaremos! Essa é a idade que pensamos que ainda temos. Mas não a temos mais: caia na real!Você é uma pessoa idosa, mas que mantém a felicidade, a paz, e a juventude de espírito! 

MINHA ÚLTIMA HORA


(23/11/13)


Em Macabeus 6,8-13, lemos que o rei Antíoco, após a derrota, lastimou seus feitos malignos contra as pessoas. Dizem os versículos 12 e 13:

"Agora, porém, assalta-me a lembrança dos males que cometi em Jerusalém, quando me apoderei de todos os objetos de prata e ouro que lá se encontravam e mandei exterminar os habitantes de Judá sem motivo. Reconheço agora que é por causa disso que estes males se abateram sobre mim. Vede com quanta amargura eu morro em terra estrangeira!".

E 2º Macabeus 9,28 completa:

"Assim este assassino e blasfemo, no meio dos piores sofrimentos, do mesmo modo como havia tratado os outros, terminou a sua vida em terra estranha, nas montanhas, no mais lastimável dos destinos".


Essa é a leitura de hoje, sábado da 33ª semana do Tempo Comum par. 

Sempre medito em como será a minha última hora de vida, se eu estiver consciente. Poderei até me arrepender dos pecados ou mesmo das orientações errôneas que eu tenho dado aqui e ali, mas nunca poderei refazê-las, não poderei fazer planos! Imagno a angústia que isso me fará sentir! É a diferença entre morrer em paz ou morrer angustiado!

Amigo(a) leitor(a), imagine-se também na hora da morte, como tantos santos faziam (alguns exagerados entravam nos túmulos do cemitério e ali se deitavam, para meditar). Quando eu faço isso (entenda bem, meditar sobre a morte, e não me deitar nos túmulos), sinto-me mais forte e corajoso para a luta, e na certa o mesmo acontecerá com você. Leia, se tiver tempo, a esse propósito, "O(a) eremita feliz", que publiquei com este artigo.

A FÉ DA MULHER PAGÃ


20/08/2017


Este trecho é do 20° domingo do tempo comum do ano A e gostaria de comentar aqui para confirmar a atitude coerente do papa Francisco em privilegiar os pobres e afastados. Ele está seguindo o evangelho, que infelizmente, com o decorrer dos séculos, foi um pouco deixado para trás por causa da burocracia eclesiástica.


É Mateus 15,21-28. 


Uma mulher pagã, ou seja, que não era do povo judeu (hoje diríamos que não era batizada e seria estrangeira, e de um povo que sempre teria tido ódio de nosso povo). pedia que Jesus curasse sua filha. Jesus não ligou. A mulher insistiu. Jesus lhe disse que não podia dar os pães aos cachorrinhos (era assim que apelidaram os cananeus). A mulher lembrou Jesus que os cachorrinhos comem as migalhas que caem da mesa dos que estão se banqueteando. E era isso mesmo: nas casas dos ricos, eles limpavam os dedos (porque comiam a carne com as mãos) com miolos de pães que eram jogados ao chão e comidos pelos cachorros. 


Jesus disse, então à mulher PAGÃ e cananeia, ou seja, inimiga dos judeus, o que poucas vezes dissera: “GRANDE É A TUA FÉ”! Gente, lembro-lhes que no evangelho do domingo passado Jesus disse a PEDRO; “HOMEM DE POUCA FÉ”! E Pedro, como sabemos, foi depois o primeiro papa, nomeado pelo próprio Jesus. 


Isso mostra como o papa Francisco está certo ao estender o cristianismo a todos, sem distinção. Precisamos vencer esse paradigma e sermos missionários deste novo tempo! (Paradigma é quando a gente acha que deve continuar tudo como está, que não há como superar esta ou aquela dificuldade).

A CASTIDADE



“Beati imaculati in via, qui ambulante in lege domini” (sl 119(118), 1).

A castidade é um tema fácil de se comentar, mas difícil de se praticar. O Pe. Eugène Charbeauneau diz, num de seus livros “Solteiros e casados autoanalisados”, que nós teremos o desejo de cópula até a nossa morte. Uma senhora de 80 anos, doente, acamada, perguntou-me, certa vez em que fui visitá-la, até quando ela teria “aqueles pensamentos”. Eu lhe disse, em tom de brincadeira, “até três horas após a sua morte”. Ela espantou-se. Faleceu dois anos após, aos 82.

Um dos problemas da castidade é o conjunto de problemas afetivos que todo humano tem. Ninguém é plenamente “normal” em relação ao sexo, não no sentido que a gente entende a palavra “normal”.

Outro problema sério é a hipocrisia. Quem é casto de verdade? Só Deus sabe! Será que os que condenam os problemáticos nesse setor são mais castos do que eles?
Os que têm desvios sexuais sofrem mais do que os ditos normais, pois estão constantemente em tentação e sentem-se impedidos de praticar a castidade. Não percebem que, com a graça de Deus, tudo é possível. Essas pessoas sentem tentações onde quer que estejam: no dia a dia, no trabalho, nos passeios, nos acampamentos, na praia, nos retiros, na igreja, nos encontros espirituais... Como sofrem!

A Igreja é curta e rápida nesse assunto: quem não consegue viver uma castidade relativa mesmo no casamento, fique completamente casto e ponto. Aliás, Gandhi está nessa lista. Não conseguindo controlar-se, combinou com sua esposa viverem como irmãos. E viveram assim muitas décadas. Quando ele falou isso em sua autobiografia, já viviam em castidade há mais de 20 anos.

Quanto a ser casto, a Igreja ensina que é um dom de Deus. Quem quiser ser casto, tem que pedir isso a Deus, ser humilde. Por isso o vaidoso e o orgulhoso que acham poderem cuidar sozinhos de si mesmos, vão sentir muita dificuldade na castidade. Sentem-se superior a todos e a tudo. Jesus criticou-os muito, na pessoa dos fariseus e dos escribas, dizendo que não tinham perdão, mas perdoou facilmente os adúlteros, por saber que pecaram por fraqueza, e ensinou-lhes a humildade.

Quanto à beleza da castidade, copio aqui um artigo que eu escrevi e publiquei no blog, de 2014:

Estou lendo um livro de uma teóloga alemã, UTA RANKE-HEINEMANN, prefaciado por Leonardo Boff, que vai plenamente contra o celibato na Igreja, e contra uma série de atitudes que a Igreja toma em relação à castidade, sexo, contracepção etc. Nega várias atitudes morais baseadas na bíblia, alegando “falsa interpretação”. O nome do livro é sugestivo: “Eunucos pelo Reino de Deus”, editora Rosa dos Tempos. A autora, doutora em teologia e professora numa universidade alemã, perdeu o cargo após a sua publicação.

Por estranho que pareça, o livro me fez amar mais a minha vida celibatária e a castidade. Depois de matutar muito sobre o assunto, baseado não tanto nos livros, mas na minha experiência, percebi que o que interessa não é tanto ser ou não ser celibatário ou casado (a), manter ou não uma virgindade perpétua, mas sim, ser santo, livre de pecado, seja ele qual for.

Li em algum lugar que as cinco virgens imprudentes não entraram no “céu”, apesar de serem virgens!

Qual é a diferença entre viver buscando a santidade, estar lutando contra o pecado e viver no pecado, seja ele sexual, ou causado pela mentira, as brigas, a desonestidade, as fraudes, a vaidade, o orgulho, a violência, a falta de caridade, o egoísmo, o ódio, o isolamento?

Enumerei várias coisas:

1- A busca da santidade nos deixa leves, fáceis de sermos conduzidos pelo Senhor.

2- Deixa-nos uma paz incrível, inexplicável, que produz uma alegria intensa e interior;

3- A oração, o colóquio com Deus, torna-se mais fácil;

4- Impele-nos a amar as pessoas, sobretudo as necessitadas (sejam elas ricas ou pobres, pois um rico doente e/ou abandonado é uma pessoa necessitada de nossa presença). Amor sem distinções e sem interesse, devido à busca da santidade naquele relacionamento. A castidade não pode nos deixar isolados. Dizia um meu colega de seminário, o atual Pe. Everaldo: “Ao darmos um nó simbólico “naquilo”, pelo voto de castidade, não podemos dar também um nó no coração!” (1972).

5- Buscar a santidade não é deixar de sentir atração sexual, nem deixar de sentir os movimentos no corpo, causados pelos hormônios, mas integrar esses movimentos e impulsos internos à vida diária. Lembrar-se, também, de que há outros impulsos que nos levam ao pecado, mas igualmente não são pecados em si, como os que levam ao alcoolismo, à violência, ao isolamento, ao egoísmo, ao auto fechamento, à busca do prazer pelo prazer, do dinheiro, do luxo etc.

Esses impulsos só se tornam pecados se forem consentidos e alimentados por nossa concupiscência.

Santa Catarina de Sena compara esses impulsos com cães amarrados que latem, mas não mordem (sinal de que sentia muito esse tipo de coisa). Se não lhe dermos confiança (dizia ela), se enfraquecem.

6-(...)(já disse no início)
O próprio Jesus teve alguma sensação do prazer sexual, pois sendo 100% homem, tinha as poluções noturnas normalmente, como todos os homens até a idade de uns 68 anos (alguns até mais). E foi castíssimo! Nunca pecou!

7- A santidade é impossível sem a humildade e sem o autoconhecimento. Conhecer-se e humildemente aceitar-se como se é, para evitar as ocasiões de pecar e fugir do pecado. Cada um deve conhecer seus limites e suas tendências. Aqui entra o famoso “Orai e Vigiai”, tão insistido por Jesus e pelos Apóstolos.

8- A luta em busca da santidade, seja vivendo o celibato ou a fidelidade conjugal, é uma luta contínua. Gandhi combinou com a esposa de viverem castos, e conseguiram. Mas ele dava até receita de alimentos que não causavam muito hormônio! Um amigo meu dizia que seria capaz de viver com sete esposas, mas se contentava com a dele e a respeitava. E eu acredito nele.

São Francisco de Salles era especialista em “receitar” atitudes que podem ajudar a vencer as tentações do dia-a-dia, como no livro “Filotéia” (você o encontra na internet, se o desejar). Ele orienta de modo especial tanto os celibatários como os não celibatários.

9- A santidade é um dom de Deus, mas requer nossos cuidados e nossa luta. Devo fazer a minha parte, para que Deus faça a dele.(...)

Concluo exortando a todos e a todas a nunca desanimarem da luta, mesmo se caírem, seja em algum pecado sexual, seja não sexual. “Levante, sacuda a poeira e dê a volta por cima”. Nunca desanimar, nunca desistir.

Quanto ao celibato obrigatório para os padres, acho que está na hora de liberar a ordenação sacerdotal para os casados. É um absurdo “amordaçar” o Espírito Santo, sujeitando-o a só dar vocação aos que querem ser solteiros. Sei que o papa Francisco vai rever isso e logo teremos padres casados em abundância, como escrevi no meu artigo “Hecatombe”. (...)

Nunca duvide do amor de Deus por você! Seja qual for sua situação de vida, ele recolheu em seu odre todas as lágrimas que você derramou (Salmo 56,9). Todas! Nem uma só gota foi desperdiçada!

E o último conselho, baseado na minha experiência: não exagere em nada! Pare de procurar chifre na cabeça de cavalo! Nem tudo é pecado! Aprenda a distinguir o verdadeiro do falso nesse assunto. No campo da castidade, por exemplo, muitos lutam tanto para serem castos que deixam de lado a caridade, que é a virtude principal, pela qual vamos ser julgados (confira em Mateus 25,31-46). As virgens imprudentes, embora continuassem virgens, não entraram na festa nupcial (=no céu).

Neste artigo quero acrescentar que os que desejam a castidade, devem programar-se numa vida de oração, meditação, leitura espiritual, exercícios físicos (ou pelo menos uma caminhada diária), sobriedade na alimentação, nos olhares, nas palavras, direção espiritual, humildade, confiança em Deus, VIGILÂNCIA, jejum de televisão, jejum absoluto de artigos eróticos, autoconhecimento, nunca recalcar os problemas (mas enfrenta-los com coragem), administrar as fantasias, saber que o sexo traz muitas ilusões (é como o café, que o cheiro é um e o gosto é outro) e nunca desanimar.

Textos bíblicos:

Filipenses 4,8.9b:

“Irmãos, ocupai-vos com tudo o que é verdadeiro, nobre, justo, puro, amável, honroso, virtuoso ou que de algum modo mereça louvor. E o Deus da paz estará convosco”.

Apocalipse 20,27: “Coisa imunda alguma entrará na Cidade Celeste”.

Outros: Mateus 5,27-32; 1ª Coríntios 7 (todo); 1ª Coríntios 6,12-20; Romanos 6, 19-23; 1ª Coríntios 15,33; Colossenses 3,5; Romanos 1,26-27; Romanos 1,29; Efésios 4,32-5,8.

Termino com a carta que o papa Paulo VI enviou a um recém ordenado pastor evangélico seu amigo:

CARTA DE PAULO VI A UM PASTOR (Sobre a castidade)

Extraído da revista Ultimato. Se você quiser dar uma olhada, eis o link: www.ultimato.com.br/revista/358
Carta que um recém-ordenado pastor recebeu de Roma, do Papa Paulo VI, mas que serve para todos nós:

“Eu, Paulo, apóstolo de Jesus Cristo, escrevo a você, meu querido irmão e colega de ministério. Desejo tudo de bom para você e sua igreja da parte de nosso Deus e de Cristo.

Soube de sua ordenação ao ministério. Felicito-o por ter atendido o chamado de Deus e se preparado para tanto. Não por intrometimento, mas por estar historicamente ligado a você e à sua família, tomo a iniciativa de escrever-lhe a presente carta pastoral. Lembre-se de que eu tenho mais do que o dobro de sua idade e sou tão humano quanto você.

No momento, não vou dar conselho algum sobre questões teológicas, eclesiásticas e administrativas. Nem sobre a vida devocional, que deve ocupar a sua primeira atenção.

Por saber que muitos dos nossos colegas, inclusive os de minha idade, estão tendo sérios problemas com a sua sexualidade e que a sociedade está cada vez mais permissiva, permita-me dar-lhe alguns poucos conselhos de pai para filho.

Primeiro, você ainda vai fazer 26 anos e está cheio de vida. Fuja das paixões da mocidade. Ou, melhor, volte as costas para elas. Eu me refiro em especial aos desejos turbulentos da juventude. Não aos desejos naturais, sadios e controlados, mas às paixões malignas e aos pensamentos impuros. Fugir não é sinal de fraqueza nem de fracasso. Muitas e muitas vezes fugir de alguma coisa errada ou inconveniente é um ato de heroísmo.

Segundo, como pastor de um pequeno ou grande rebanho, você precisa ser exemplo dos fiéis, ao pregar, ao ensinar, ao orar, ao aconselhar, ao advertir. Torne-se padrão para toda a igreja e para os de fora, em tudo: na palavra, no procedimento, no amor, na fé e também na pureza. Estou me referindo à pureza sexual. Em outras palavras, torne-se modelo na pureza, isto é, porte-se de acordo com a lei moral de Deus, em pensamento, palavra e ações.

Terceiro, você não será pastor só de ovelhas do sexo masculino, mas também de meninas, mocinhas e senhoras (mães e avós). Meu conselho é: trate as mulheres idosas como mães e as mulheres jovens como irmãs, com toda pureza. Você terá de fazer uma ginástica enorme. Não é algo simples tratar qualquer mulher, sobretudo as mais jovens, com naturalidade, sem qualquer maldade, sem qualquer lascívia, sem qualquer impudicícia, sem qualquer luxúria. Essa dificuldade real é devido à bagagem pecaminosa que está dentro de você e de mim.

Quarto, conserve-se puro. Hoje, amanhã e depois. Em casa, na igreja e na rua. Acordado ou dormindo (caso você tenha algum sonho erótico, provocado ou não por você, lave sua mente e entregue-o ao esquecimento). Sozinho ou na companhia de alguém. Em viagem de uma cidade a outra ou de um país a outro. Sua pureza não pode ser esporádica. Caso haja algum intervalo, apresse-se em pedir desculpas a Deus e a subir imediatamente o degrau do qual você desceu.

Espero que você leia o meu testemunho pessoal sobre o drama da nossa humanidade e da nossa propensão pecaminosa que eu contei aos nossos irmãos que estão aqui em Roma. Em meu desespero, eu clamei: “Quem sobre a terra nos libertará das garras da minha natureza pecaminosa?”. Mas, quando eu recorri a Cristo, fiz uma oração de ação de graças: “Dou graças a Deus por haver uma solução que só pode ser por meio de Jesus Cristo, Senhor nosso”. Continuo dependendo dele para me conservar puro e ser um exemplo de pureza.

Que a graça do Senhor Jesus Cristo esteja com você, meu querido filho”!

(Texto baseado em 1 Timóteo 4,12, 5,1-2 e 22 e em 2 Timóteo 2,22)