domingo, 21 de maio de 2017

HECATOMBE



 (05/05/2014) (FICÇÃO)
(Dom Helder Câmara escreveu um poema com um tema parecido com este. Disse que sonhara que o papa enlouquecera, pusera fogo no Vaticano, disse adeus aos embaixadores, jogou a tiara no rio Tibre, espalhou pelos pobres todo o dinheiro do Banco Vaticano. Termina o poema desta maneira: "Que vergonha para os cristãos! Para que um Papa viva o Evangelho, temos que imaginá-lo em plena loucura"!)

Tive uma visão: o papa estava fazendo uma visita pastoral à Argentina, quando ocorreu um fenômeno inusitado na terra, como que tornando realidade o que diz o livro do Apocalipse 16,18-20:

“Houve então relâmpagos, vozes, trovões e forte terremoto; terremoto tão violento como nunca houve desde que o homem apareceu na terra. A grande cidade (Roma) se dividiu em três partes, e as cidades das nações (povos pagãos) caíram (...). As ilhas todas fugiram e os montes desapareceram.”

Um, meteoro caiu bem no centro da Itália, com maremotos e terremotos violentos que fizeram sumir do mapa a Itália, parte dos países vizinhos, uma faixa ao norte da África, cortando quase todo o deserto do Saara, toda a Palestina, alargando bastante o Mar Mediterrâneo e pondo fim ao estreito de Gibraltar, que deixara de ser um “estreito”.

O Vaticano simplesmente desapareceu, com todas as suas riquezas artísticas. Milhões de pessoas morreram. O mundo muçulmano e judeu tiveram também grande perda. Isso os ajudou a se unirem mais aos cristãos. 

O aumento do Mediterrâneo mudou o sistema climático e começou a chover no que restara do Saara. Um misterioso vento provindo das florestas africanas semearam sementes de árvores, arbustos e árvores frutíferas e, ao cabo de algum tempo, tudo brotava. Era o início de uma segunda floresta amazônica.

Todos os lugares frequentados por Jesus estavam submersos. Acabou-se o turismo religioso a essas regiões. Finalmente a senhora pobreza batera às portas da Igreja, que não possuía mais um país independente. 

Houve uma reunião de emergência na ONU para resolver os problemas surgidos com essa hecatombe. O papa abreviou sua viagem à Argentina e foi para lá, com alguns peritos no assunto diplomático da Igreja Católica.

O resultado da reunião foi a doação de uma região ao lado do que era a Palestina, para os judeus e a renúncia, por parte da Igreja, de um país autônomo. Remanejou os seus núncios (embaixadores) para outras funções pastorais não diplomáticas.

O Brasil ofereceu-se para abrigar o Papa, que aceitou e foi morar na Aparecida, que tornou-se como que um novo Vaticano. 

Um sínodo dos Bispos acabou com a obrigatoriedade do celibato para os padres e aceitou os já casados que quisessem voltar à prática do sacerdócio.

Imediatamente subiu para um número elevado os padres do mundo todo, com a ordenação sacerdotal dos já diáconos casados. Aparecida tornou-se meta de peregrinações mundiais.

Na visão vi também as consequências da ordenação de homens casados , que atualmente não existe, ou existe em pequeno número. :

-desvio de dinheiro nas paróquias;

-enriquecimento ilícito de alguns padres;

-problemas criminais envolvendo filhos de padres;

-separação de casais cujos maridos eram padres, por  traição dele ou dela;

-posses ilegais de casas paroquiais;

-falta de formação adequada para muitos padres casados.

Aos poucos, dei-me conta de que nada disso ainda ocorrera. Um alívio imenso tomou conta de mim, e a certeza de continuar lutando para que tudo isso possa ocorrer de modo santo, sem nenhuma destruição, só na base de um bom Concílio que leve em consideração a verdadeira vontade de Deus e do bom senso. Afinal, por que a Igreja precisa de um país (o Vaticano) para governar?

Precisamos exercer nossa atividade aqui e agora, pois não conhecemos o futuro, a fim de que tenhamos um feliz amanhã! E o tal meteoro, os cientistas dizem que vai se chocar com a terra em 2019 ou 2020...

O PINTASSILGO


Meu pai criava passarinhos e, entre eles, um pintassilgo que alguém lhe dera. Era muito bonito e cantava maravilhosamente. Entretanto, estava muito solitário. Meu pai então teve a ideia de colocá-lo para criar com uma canária. Deu certo! Após algum tempo, nasceram três pintagóis machos, que é o resultado do cruzamento desses dois tipos de passarinhos. Os machos cantam uma mistura de pintassilgo com canário, mas as fêmeas são estéreis: não criam.

Durante a chocagem, várias vezes ele tratava da fêmea no próprio ninho, para ela não abandonar os ovos. Quando ela saía para suas necessidades, ele ficava no ninho, para não gorar nenhum ovo. Eu ficava admirado de ver tanta dedicação assim numa simples avezinha! Ele também ajudava a fêmea a tratar dos filhotinhos. Como era bonito ver isso! É um exemplo que pode ser visto de dois modos diferentes: por um lado, os pais que tratam bem dos filhos. Por outro lado, os que os abandonam ou os tratam mal.

Sempre que me lembro do pintassilgo, lembro-me também de um amigo meu que pegou três meninos para acabar de criar. Foram abandonados pela mãe. O mais novo, quatro anos. O mais velho, 8 anos. O “seu” Arlindo, pai deles, pedreiro, conseguiu cuidar deles até que teve dois derrames quase seguidos, que o deixaram de cama. Conseguiu, a muito custo, um barraquinho na favela para morar. Lugar horrível! Bem em frente a um pequeno córrego transformado em esgoto, do qual saíam muitos animais (ratos) e insetos comuns e os peçonhentos (pernilongos, baratas, escorpiões, moscas, aranhas).

Sr. Arlindo vivia na cama e era cuidado por um ou outro vizinho, e pelo filho mais velho, o Clóvis. Quando este completou 13 anos, esse meu amigo, então com 40 anos, os encontrou por acaso, quando visitava um outro amigo doente: Clóvis cozinhava, no pequeno espaço diante do barraco, numa lata em cima de dois tijolos, num fogo feito com gravetos, tudo junto: arroz, feijão e batata. Aquilo lhe partiu o coração. Não pensou duas vezes: entrou, conversou com o Sr. Arlindo, que lhe disse ter uma irmã que morava numa cidade próximo a Itaí.

Nos dias seguintes, várias providências foram tomadas: o Sr. Arlindo, enviado à casa de sua irmã; O filho mais novo, agora de 9 anos, foi dado a uma família vizinha desse meu amigo. Os outros três mais velhos (10,12 e 13 anos) ficou com esse meu amigo.

Eles cresceram trabalhando em pequenos serviços adequados à idade, e atualmente são casados, um deles, o Clóvis, tem um filho maravilhoso, têm muita saúde e alegria.

Vejam que coisa: A mãe deles apareceu depois de 25 anos, quando o mais novo já tinha 29 anos. Esse mais novo acolheu a mãe e de vez em quando vai à sua casa; os outros, entretanto, preferem manter-se à distância, embora não a rejeitaram. Perderam aquele elo que os ligava naturalmente à mulher.

O sr. Arlindo morreu, já no seu quarto derrame, mas era feliz em saber que seus filhos estavam bem cuidados.

Quanto ao meu pintassilgo, meu pai soltou-o logo após a ninhada ficar adulta e cantar maravilhosamente. Nunca mais nós o vimos. Estará, na certa, com uma outra canária, ou mesmo com uma pardal, procriando e tomando conta de seus filhotes. Êta passarinho bom! Quisera que todos os pais fossem desse jeito!

ANGÉLICO





Luíza fazia crochê na sala, ao lado de seu esposo Antônio, que lia o jornal do dia. O filho deles, Luís, dormia em seu quarto. Havia chegado bêbado, de madrugada, e aparentemente drogado. Os pais conversaram sobre isso. D. Luíza disse que estava rezando muito para o Anjo da Guarda dele, a fim de tirá-lo dessa vida maluca que ele levava. O pai, Sr. Antônio, também disse que rezava nessa intenção.

Sobretudo pediam a Maria que intercedesse por ele. Só mesmo a oração poderia mudá-lo.

Algum tempo depois, Luís levanta-se, beija o rosto da mãe, cumprimenta o pai e senta-se entre eles, cabisbaixo.

- Como é que eu cheguei aqui ontem? Só me lembro que desmaiei!

-Você quer dizer “hoje”, não é, Luís? – disse-lhe o pai. Foi um seu amigo. Aliás, ele me ajudou a dar um banho em você, pois nem se via seu rosto, de tanto barro. Você estava todo vomitado!

- Meu Deus! – disse Luís. Mas... que amigo é esse?

- Disse chamar-se Angélico. Ele me ajudou porque você estava praticamente desmaiado, e vomitou mais ainda no banheiro. Luís, você precisa deixar essa vida!

- Pai, eu não conheço ninguém que se chama Angélico!

Um silêncio inundou a sala.

- Ele é negro e tem mais ou menos sua idade. Disse também que nem você sabe disso, mas ele é o seu melhor amigo.

Luís olhou para o nada, pensativo; “Quem será esse cara?”

Antônio e Luíza se entreolharam e fizeram um sinal com os ombros, como quem diz: “deixa pra lá”.

Luís foi à cozinha tomar um lanche, pois não estava com vontade de comer a comida do almoço. Seus pais se aprontaram e saíram fazer umas compras.

-Luís, podemos ir tranquilos? Você não vai fazer nenhuma besteira?

-Não. Podem ir tranquilos!

Após saírem, Luís vai à sala com um copo de suco, após haver comido um lanche. Estava pensativo a respeito do tal amigo. Nisso alguém bate à porta. Ele atende e é o Angélico.

-Você que é o Angélico?

-Sim. Podemos conversar?

Luís acena que sim e oferece-lhe um lugar no sofá.

-Afinal, quem é você? Eu não me lembro de que seja o meu melhor amigo. Se nem nos conhecemos!

- Luís, por enquanto eu gostaria de não lhe falar sobre isso. Peço sua paciência e compreensão. Eu apenas quero ajudá-lo. Você está precisando de ajuda, certo?

-Certo!

- Então, tenha paciência, que no tempo certo você vai saber melhor quem eu sou.

-Tudo bem!

-Em primeiro lugar, aqueles com quem você estava ontem são mais seus inimigos que amigos. Você deveria deixar de estar com eles!

-Deixa disso! Eles são os meus “parsas”

-Se fossem, teriam trazido você!

-Por que você diz isso?

-Seu pai não lhe disse que você voltou nu para casa?

O rapaz assustou-se.

-Nu? Como assim?



-Seus “parsas”, como você diz, tiraram sua roupa e seu tênis e os deram ao cara que lhe dera a droga, como parte de pagamento.

Depois de um momento de silêncio, Luís caiu na real:

-Pôxa! Eles fizeram isso?

-Fizeram! Eles não gostam de você, Luís! Querem só o seu dinheiro e são capazes dessas e de outras baixarias para obterem o que querem!

-Angélico, não sei o que dizer. Gosto de usar drogas. Elas me acalmam, me fazem bem!

-Fazem bem? Eu não acho que aquilo em que você se tornou ontem é um “bem”. Será que isso vale a pena?

- Sem elas não consigo viver!

-Luís, você não nasceu viciado!

Outro tempo de silêncio.

-Você precisa orar, rezar mais. A nossa força vem da oração. Sem ela, não há como deixar as drogas ou qualquer outro tipo de mal.

-Eu rezo!

-Muito pouco, quase nada.

-Como é que você sabe?

Angélico fica em silêncio e Luís se lembra do que ele dissera no início.

-Bem... deixa pra lá!

-Luís, você ia à igreja e rezava bastante, há alguns anos atrás!

-Até isso você já ficou sabendo?

_Depois você abandonou Deus e a comunidade, e começou sua vida de viciado. Você rezava muito ao seu Anjo da Guarda.

-É... Eu rezava mesmo. Ele era como meu amigo invisível.

-E era mesmo, como é ainda seu amigo invisível.

-Como era mesmo? Santo Anjo do Senhor... (e para)

Angélico conclui a oração e Luís o acompanha.

-Eu não acredito mais nos padres! Tudo besteira! Tudo mentira! Percebo muitas incoerências entre os padres e mesmo entre os que participam da comunidade.

- As incoerências dos padres e leigos militantes não anulam o ensinamento da Igreja! É como um professor que mostra aos alunos o que lhes pode prejudicar na vida, mas não pratica aquilo. Por ele não praticar não significa que o que ele ensina é mentira.

O silêncio mais uma vez reinou na sala.

-É... A gente inventa mesmo muitas desculpas. Há algumas pessoas boas entre as que eu conheço.

Angélico disse, então, o nome de algumas pessoas conhecidas de Luís que eram verdadeiras no que faziam e falavam.

-Mas como você sabe disso?

Angélico explicou que tinha um tipo de dom de perceber isso nas pessoas.

-E lhe digo ainda mais: Suas orações daquele tempo e as de seus pais foram ouvidas por Deus! Mas vai lhe acontecer algo que o deixará prostrado, a ponto de desanimar novamente, no começo, mas, se você perseverar na oração, começará a nascer de dentro de você uma força que você nunca antes imaginou existir dentro de si. Uma coisa eu lhe digo: tanto agora como nesse tempo de infortúnio que lhe sobrevirá, nunca deixe a oração. E recomece a rezar pelo seu Anjo da Guarda! A oração afugenta nosso inimigo!

- E quem é nosso inimigo? O demônio?

-Não só ele. Há muitos inimigos no nosso dia a dia. Às vezes nem é preciso o demônio para nos levar ao inferno. Nós mesmos procuramos o caminho sozinhos!

Luís cobre o rosto com as mãos, por uns instantes, e quando ergue a cabeça não vê mais o amigo. Olha a cozinha, o quarto, e fica assustado. Não havia percebido que tinha saído. Talvez vendo-o com as mãos no rosto, deixara-o sozinho para que meditasse um pouco! Mas chegou a pensar: “Será que eu estava tendo um tipo de “delirium tremens”? Sentado, encosta a cabeça no respaldo do sofá e pensa: “O que será de mim”? E adormece.

Eram seis horas da tarde quando ele acorda, assustado. Estivera dormindo desde às 2 horas! E seus pais, que ainda não haviam voltado?

Estava para telefonar para algum lugar, quando tocam a campainha. Era um senhor, que se identifica como um policial, e lhe diz que os pais de Luís haviam sofrido um acidente e estavam no hospital, muito mal. Pede que o acompanhe. Luís sai como está, apenas pegando a chave e fechando a porta da casa.

Dias depois seus pais morrem. Ele fica desesperado. Cai mais ainda nas drogas, e até herda a casa e uma quantia boa de dinheiro, mas gasta tudo com drogas e orgias. Acaba ficando sem nada, na rua da amargura. Na rua, mesmo, sem metáfora, porque não tinha onde morar. Torna-se mendigo, morador de rua.

Certo dia estava ele sentado numa calçada, sozinho, quando de repente vê o Angélico sentado ao seu lado, bem vestido, com a mesma roupa daquele dia, com a mesma fisionomia. Já se haviam passado muitos meses.

-Tudo bem, Luís?

Luís olha para ele assustado e o xinga:

-Tudo bem? Como tem coragem de me dizer isso? Você esteve aquele dia em casa só para vaticinar desgraças na minha vida! Quem é você, afinal?

Angélico não dá a mínima para o que ele dissera.

-Luís, você se descuidou muito! Seus pais parece que seguravam um pouco sua vida! Você piorou muito! Desistiu de viver!

- Eu me perdi nas drogas, no jogo, nas orgias... Mas como é que eu consigo ser tão sincero com você? Nem para mim admito tudo isso!

-Coloque isto em sua cabeça: você não consegue mentir para mim. Não queira saber o porquê. Um dia você vai entender.

- Meus amigos me abandonaram, pois, como você mesmo disse, estavam comigo apenas por causa do dinheiro! Minha namorada me largou, por causa das minhas orgias com outras.

Angélico abraça Luís, que encosta a cabeça em seu ombro, e começa a chorar, soluçando. Depois de um tempo, olha para o amigo e lhe implora: “Angélico, me ajude”!

-Luís, esse tempo todo eu só estava esperando essas palavras suas: dando permissão para que eu o ajudasse. Sem essa permissão, Deus não pode ajudar a ninguém, pois estaria se intrometendo em nossa vida, e ele preza muito nossa liberdade, o nosso livre-arbítrio! Mas saiba disso: seja sempre sincero e converse muito com Deus. Ele é seu amigo e nunca vai abandoná-lo. Nem eu. Quer rezar comigo?

-Quero, mas não sei nem como começar.

- Diga a Deus o seu nome!

-Mas ele já sabe!

_Diga!

_Meu Deus, eu me chamo Luís.

-Agora fale-lhe sobre seu problema.

-Deus, eu sou viciado em drogas, em álcool, em sexo, sou órfão, pobre, vivo na miséria, gastei todo o dinheiro que meus pais ajuntaram com tanto sacrifício, estou abandonado, só o Angélico veio falar comigo, mas até ele me abandonou nesse tempo todo! Sou pecador, e me envergonho de todos os pecados que faço, pois trazem muita angústia e dor no coração, muito sofrimento. Peço perdão de todos eles e gostaria de mudar de vida!

-Agora peça o que você quer de Deus

-Meu Deus, peço a graça de ser feliz, e de receber o vosso perdão. (E cobre o rosto com as mãos, chorando).

Quando vai novamente falar com o amigo, ele não está mais lá. Pensa: “Que mania de sumir desse jeito! E agora? Até ele me abandonou!” Estou mais tranquilo, mas sinto vontade de usar droga. O dinheiro acabou. Vou roubar algum e comprar droga...

Chega um homem e ele pensa em roubá-lo, quando ele lhe pergunta:

-Você que é o Luís?

Vendo-se conhecido, desiste de roubar.

-Sim, por que? Como sabe o meu nome?

-Um rapaz chamado Angélico pediu-me para ajudá-lo.

-Você o viu?

-Não. Ele me telefonou.

O homem senta-se ao lado do rapaz.

-Meu nome é Juan, sou chileno e dirijo uma casa de recuperação. Está disposto a tentar a recuperação? Você precisa querer para dar certo. Obrigado ninguém consegue manter muito tempo a sobriedade.

-Já que o meu amigo lhe telefonou;;;

-Ele é seu amigo? Eu achei estranho o telefonema dele!

-Estranho? Por que?

-O nosso telefone é rural, e está sem linha! Só recebemos o telefonema dele. Ninguém consegue falar com a casa. Depois, a outra coisa estranha é que ele me deu a hora exata que eu deveria vir para cá me encontrar com você.

-E a que horas ele telefonou?

-Esse é o outro ponto estranho: Foi ontem à noite! Como ele saberia que você estaria aqui, sóbrio, a esta hora?

Fizeram silêncio, tentando entender, mas desistiram.

-Você vem comigo, Luís?

-Vou.

Pondo a mão em seu ombro, Juan lhe disse:

-Você não vai se arrepender, Luís. Lá, nós formamos uma família! Deus ouviu suas orações!

-É... e eu acho que o meu anjo da Guarda também!

-É? Você reza para ele sempre?

-Rezava antes, mas eu lhe chamei algumas vezes para ajudar-me. E acho que ele está me ajudando.

-Você acha que é o Angélico?

-Acho. Esse cara é muito misterioso! Só tenho dúvida porque ele é negro!

-E por que necessariamente um Anjo da Guarda deveria ser branco?

-É...Por que, não é?

Um ano mais tarde chega o dia da “formatura” de Luís na casa de recuperação. Juan fala:

-Tivemos horas muito difíceis, mas com graça de Deus, ajudamos Luís a se recuperar. Não é, Luís?

-É verdade. Sozinho eu nunca teria conseguido. Primeiramente, devo agradecer ao Angélico, que acho que me está ouvindo agora, e que eu considero o meu Anjo da Guarda. Ele simplesmente desapareceu, mas, por mais esquisito que seja, eu ainda sinto sua presença, sempre. Deus nunca nos abandona quando lhe pedimos, sempre nos socorre. Ele é a Divina Misericórdia! Ele não recusa ninguém! Ele toma a iniciativa de se achegar a nós. Cabe a nós aceitarmos, respondermos ao seu amor.

“Tudo posso naquele que me conforta”, diz S. Paulo Apóstolo. Tudo poderemos fazer se estivermos “atrelados” em Deus, que, como diz Efésios 3,20, “É todo-poderoso para realizar por nós, em tudo, muito além, infinitamente além do que pedimos ou possamos”.

“Sei que não é fácil. Sempre terei vontade de provar um baseado, ou mesmo alguma droga pior. Mas sei, também, que tudo o que pedirmos a Deus ele nos concede, não talvez no modo como pedimos, mas do jeito dele, que é melhor. E como diz Henri Delassus, “Cada dia que um cristão passa sobre a terra é um resumo de sua vida”. Se conseguirmos ficar sóbrios por um dia, o dia de hoje, o conseguiremos por toda a nossa vida. Agradeço, portanto, a todos os que me ajudaram e ainda vão continuar a me ajudar. Quanto a mim, vou procurar passar adiante o eu aprendi e tentar resgatar outras pessoas do vício”.

E assim termina nossa história. Eu acredito no Anjo da Guarda, e o meu tem nome, que eu lhe dei. Você também pode dar nome ao seu Anjo. Na vida eterna, saberemos qual é o seu verdadeiro nome. Por enquanto, é esse que lhe demos.

Os anjos estão a serviço do Deus Altíssimo e sua missão é oferecer-lhe tudo o que seus protegidos faz de bom. Jesus também teve na terra seu Anjo da Guarda, o que o confortou na agonia do Getsêmani.



Os anjos são tão celestes que é impossível que se mostrem a nós como são. São muito belos, e quando aqui aparecem, usam a aparência humana. Vale a pena pedirmos a eles que nos ajudem a recomeçar a nossa vida! O céu nos espera!



ADÁGIO DE ALBINONI

                         


(Leia a historinha ouvindo o famoso "Adágio de Albinoni", com órgão e orquestra, gravado numa igreja da Hungria. Há no decorrer da música algumas propagandas, até inconvenientes, mas clique no lugar adequado que elas desaparecem). 

Julho do início da década de 90. Campos do Jordão. Teatro do Palácio do 
Governo. O frio ficou fora desse templo da música. Lotação completa. Todos bem vestidos, com belos casacos. O perfume das mulheres e o das flores dos jardins que circundam o teatro disputam nosso olfato, mas acabam se entendendo e nós os sentimos todos. Silêncio. Começa o Adágio de Albinoni, com órgão, violino e orquestra.

A orquestra começa a música. A música, a poesia,o romance, enfim, o belo, sob todos os aspectos (visual, olfativo e auditivo) invadem o ar e nos aglutina. O espírito se eleva às alturas! Há duas orquestras: a do palco e a de todos esses instrumentos que mencionei: vestes, perfumes, clima, beleza do local, que se harmonizam entre si de forma praticamente maravilhosa, bela e sublime.
A orquestra de cá se une à orquestra de lá e minhas lágrimas arrematam o enlace, como a calda deliciosa de chocolate que se esparrama pelo bolo já saboroso.

O violino faz o solo. O órgão o responde, seguindo seus passos. O violino se anima e ergue sua voz, em vários outros compassos. O órgão se emociona e completa a harmonia iniciada pelo violino, até chegarem os dois a um clímax musical que em que se completam e se fundem. Entra a orquestra, como os jogadores que carregam nos ombros dois colegas que fizeram virar o jogo!

A natureza não se contém e uma chuva fria sussurra um acorde externo, como se fosse uma redoma de vidro a salvaguardar toda essa harmonia.

A música termina, mas ninguém quer sair do lugar. Eu me arranco da poltrona e, a contragosto, me obrigo a sair e, com meus colegas, voltar para a desarmonia da artificialidade e marasmo do nosso dia a dia.

O belo da arte nos leva a Deus, o Criador de todas as possibilidades de harmonias que possam existir.

Se as criaturas são tão belas, se podemos criar tantas harmonias, como as dessa música , se há tanta beleza na natureza, que se dirá do Criador disso tudo?! Deus é tão completo e maravilhoso, com tanta harmonia e beleza, que tudo o que há de mais belo no universo não consegue exprimir nem um só átimo de sua existência e de sua magnificência, santidade, luminosidade.

Se Deus fosse feito de átomos como nós um só átomo de sua luz daria para iluminar o universo todo, como numa visão que S. João Bosco teve. Esse átimo de luz que ele viu o deixou semi-cego por uma semana!

Se eu falasse aqui que Deus não é só luz; que Ele é também amor, beleza, harmonia, perfume, frescor de uma chuva, alegria de um acorde infinito, e tudo o que não consigo expressar aqui, eu estaria sendo muito injusto, pois não há como comparar Deus com qualquer dessas coisas! Tudo o que existe foi criado por Ele, que está infinitamente distante de ser qualquer coisa dessas! Deus não é nada disso! Deus é Deus, e tanto o belo da arte ou de qualquer outra coisa que existe, nos dá apenas uma mísera, pálida, insignificante ideia do que poderemos contemplar, um dia, se formos recebidos no Reino dos Céus.

O convite já está feito! Desde antes que o mundo existisse, Deus já nos havia chamado para vivermos com Ele no Paraíso. Cabe apenas a nós aceitarmos o convite, procurando, humildemente, colocar-nos diante dele, em súplica, pedindo-lhe que Ele nos livre de nós mesmos, do pecado, e do terrível mal que seria abandoná-lo.

Ele já nos garantiu que nunca vai nos abandonar. Se houver alguma desistência, será por nossa conta. “Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir-me a porta, eu cearei com ele e ele comigo” (Apoc 3,20)

sábado, 20 de maio de 2017

TESTEMUNHAS DA MISERICÓRDIA




03/02/16


Deus sempre perdoa. Todos nós que fomos perdoados e acolhidos por ele, somos testemunhas de sua misericórdia. Pedir perdão e recomeçar sempre! Eis o segredo da perseverança. Achar-se “sem pecado” é o maior pecado que existe, contra o Espírito Santo, e não tem perdão (Mateus 12,31-32), porque a pessoa que se acha assim, nunca vai pedir perdão. 


Reconheçamos, pois, nossos pecados, nossas fraquezas, diante de Deus, peçamos-lhe perdão e recomecemos nossa vida com maior ânimo e alegria! Sejamos, pois, sempre, “Testemunhas da Misericórdia”!


O maior erro de uma pessoa é não pedir perdão, não confiar no perdão divino. “O que mais fere o meu Coração não são os pecados, mas o fato das pessoas não quererem refugiar-se em mim depois de tê-los cometido”! (Jesus à Irmã Josefa Menendez). Veja quando puder Lucas 17,3-4; Mateus 6,14-15; 18,21-22.34-35; Isaías 43,18-19; Filipenses 3,13-14; Miqueias 7,19 (“Vou jogar seus pecados no mais fundo do mar”).


Na narrativa da Santa Ceia, vemos como Jesus disse a Pedro que se ele não o deixasse lavar seus pés, não teria parte com ele. Deixar que Jesus lave os nossos pés é deixar que ele nos ajude, que ele nos oriente, nos mostre o caminho da verdade, de nossa verdadeira liberdade para a Vida Eterna! 


Poderíamos talvez substituir o que Jesus disse em Apocalipse 3,20, “A quem me abrir a porta, eu cearei com ele e ele comigo”, por: “A quem me abrir a porta, eu lavarei os seus pés”. 


Por que nos fecharmos em nós mesmos, em nossas pretensas capacidades, e não pedirmos a ajuda divina? Por que essa asneira? É pura vaidade, puro orgulho!


Senhor, eu permito que me laveis meus pés! Sim, não quero fazer sozinho o que tenho que fazer! Quero e peço a vossa ajuda! Não me deixeis sem a vossa graça, o vosso amor, o vosso perdão, a vossa luz! Não quero caminhar no escuro!

Amigo (a), deixe-se levar por Jesus, deixe que ele lave os seus pés, que o (a) perdoe, e você também será uma TESTEMUNHA DA MISERICÓRDIA!

O NOSSO RELACIONAMENTO COM DEUS



– A fuga da Sagrada Família para o Egito: uma família tão simples, em dois jumentos, provavelmente numa caravana, pois não se viajava sozinho naqueles tempos, uma família tão comum, mas... a mais importante do universo!

Se os bajuladores de plantão soubessem disso, fariam fila para bajulá-los! Estava ali, num jumento, o Senhor do Universo, o Deus Criador de tudo, em forma humana, real, verídica, em corpo humano, mas ao mesmo tempo plenamente divino.

No entanto, os bajuladores estavam bajulando as pessoas erradas, fossem quem fossem, pois não havia ninguém mais importante do que aquela família no(s) jumentinho(s). Minha atenção, voltou-se para a Eucaristia à minha frente: Jesus está ali, na minha frente! O Deus e Senhor do Universo está ali para ser “bajulado”, adorado, servido, amado, ouvir minhas súplicas, minhas queixas, meus louvores, meus agradecimentos. Veio-me à mente e ao coração apenas uma coisa: não preciso de mais nada, de nada que está aqui, nem mesmo da liberdade. Tenho Jesus à minha frente e no meu coração, na minha vida.

Não preciso dos livros, dos doces, das roupas, das tranqueiras que guardo, do rádio, da TV, nem mesmo da Bíblia! Muitos santos nem tiveram a bíblia toda, pois era algo difícil antes da invenção da imprensa. Não preciso de nada disso porque Jesus está aqui comigo, física e espiritualmente! Haja o que houver, Ele tem-me em suas mãos, eu estou em sua companhia. Ele é meu Rochedo, minha força, minha salvação, “O Caminho, a Verdade, a Vida”! (João 14,6). Já dizia Santa Teresa de Ávila:

“Nada te perturbe, nada te espante, tudo passa! A paciência tudo alcança! Deus nunca muda! A quem a Deus tem, nada lhe falta! Só Deus basta!” Deus nunca nos decepcionará! Diz Isaías 54,8-10:

“Agora, com amor eterno, volto a me compadecer de ti, diz Javé, Meu amor nunca vai se afastar de ti”. Isaías 44,21: “Nunca vou esquecer-te!”; Isaías 49,15-16: “Ainda que a mãe se esqueça do filho que gerou, eu não me esquecerei de ti, diz o Senhor. Veja: eu te tatuei na palma de minha mão!”

Meu Deus, que palavras bonitas! Deus tem nosso nome tatuado em suas mãos! Mas vejo que para realizar isso que estou aqui dizendo, preciso das três virtudes fundamentais: A Fé, a Esperança e a Caridade! Sem essas virtudes, não dá! Mas elas não são frutos de nosso esforço, mas dons de Deus, que as dá a quem as pede.

ESCRITO NO CÉU


(outubro 2016)

Em Lucas 10,17-24), Jesus diz aos setenta e dois discípulos para se alegrarem não por eles poderem vencer os demônios ou pisar em cobras e escorpiões, mas porque seus nomes estão escritos nos céus. Como fazer para ter o nome escrito no céu?

O Cônego Celso Pedro da Silva, nosso amigo, na agenda bíblica de 2016, comenta esse trecho no dia 01/10, contando que o Dom Luciano Mendes de Almeida, bispo famoso de São Paulo, estava concelebrando a missa em rito oriental, muito mais solene que o nosso rito latino, com toda aquela pompa, na Ucrânia, na cidade de Kiev, presidida pelo Metropolita (o bispo da cidade).

Uma criança não se comportava, “escapava da mãe, tentava entrar no espaço fechado do altar oriental: a criança corria, a mãe corria, a missa longa, todos em pé. Dom Luciano, sentado na entrada do altar, pegou a criança” e a segurou nos braços. (Penso naqueles homens rudes pasmos por vê-lo fazer isso, indignados com a criança e a mãe).

Terminada a missa, a criança correu pra a mãe e a mãe gritou para D. Luciano: “Teu nome está escrito no céu”! Conclui o Cônego: “Eis o que escreve o nosso nome no céu”!

Lembro outro fato ocorrido com ele: na assembleia dos bispos, muitas vezes ele ficava no salão varrendo o chão para as reuniões do outro dia, sem ninguém ver (Se eu estou contando isso, é porque um dia alguém viu).

Meditando sobre isso, tentemos perceber em nossa vida fatos que permitiram ter o nosso nome escrito no céu, baseado nesse comentário do Cônego Celso Pedro!

Você vai ver como muitas vezes atos até impensados de caridade foram mais fortes para que o nosso nome esteja escrito no céu, do que outros, aparentemente santos, mas que foram feitos com arrogância, ou para “cumprir tabela”, ou porque não havia um jeito de escapar daquilo, ou feitos sem amor, apenas por pura obrigação.

São os pequenos gestos que nos aproximam de Jesus, como o fez Santa Teresinha, que comemoramos nestes dias (2/10). Para termos nosso nome escrito no céu, é preciso amarmos como Jesus amou, como Jesus nos ama.

O TESTAMENTO DE JESUS




(out. 2016)

O comendador Justino (nome fictício), riquíssimo, deixou toda a sua imensa fortuna para os dois filhos e três filhas que tinha, mas colocou uma condição para que eles tivessem direito à herança: conviverem um determinado número de anos juntos, sem brigas, com amor, honestidade, sinceridade, sem esbanjamento, com muita pureza e simplicidade.

É certeza que eles vão fazer tudo para cumprirem essa cláusula, para “botar as mãos” na fortuna imensa do pai.

Ora, Jesus, na cruz, deu-nos por herança dois valores incalculáveis: sua mãe, Maria: (Eis tua mãe, eis teu filho), e a vida eterna.

Maria nos leva a Jesus, que nos oferece a vida eterna , mas exige algumas condições: oi amor a Deus e ao próximo. Amor com “A” maiúsculo, que inclui a caridade, a misericórdia, a comiseração, o perdão, a convivência pacífica, a sinceridade, a simplicidade, a partilha, a pureza de coração etc.

Penso que o valor dessa herança deixada por Jesus, na cruz, é superior a qualquer quantia em dinheiro. Mas tenho certeza de que não temos tanto empenho em lutar contra nós mesmos para ganhar a vida eterna como teríamos para ganhar uma fortuna em dinheiro.

Hoje é 12 de outubro, dia de N. Sra. chamada com o nome de Aparecida, essa mãe tão terna que nos leva a Jesus pelo caminho da simplicidade, da convivência terna, pacífica, misericordiosa, entre nós. Cabe a nós levarmos a sério as exigências de Jesus e, um belo dia, nos encontrarmos todos lá no céu.

CATÓLICOS ATÉ QUE PONTO?



(Set. 2016)

Até que ponto nós somos católicos? No quê realmente acreditamos? O que realmente entendemos dessa religião?

Vejo, com dor no coração, que muitos (muitos mesmo!) não entendem o valor e o conceito de muitas verdades de nossa fé. Eu mesmo, após 20 anos de estudo (contados com o primeiro grau) ainda não entendo direito várias coisas!

Dou um exemplo da Eucaristia. Quantos conseguem ver, de verdade, Jesus presente na Sagrada Hóstia, na Sagrada Partícula?

Jesus está ali, na nossa frente, em corpo, sangue, alma e divindade. Mas muitos veem, ali, apenas um pedaço de pão e um pouco de vinho! Não conseguem sentir a presença de Jesus. Vejam que maravilha é o Milagre de Lanciano (o milagre de lanciano).

Eu me coloco entre os que às vezes se esquecem disso. Quando faço minha Hora Santa diária, diante do Santíssimo, minha mente fica poucos minutos atenta a essa verdade. Numa boa parte do tempo a divagação vai longe, vai a lugares longínquos, ao ponto até de eu me esquecer que estou fazendo a oração e até cochilo!

Será que eu me portaria assim se visse Jesus em carne e osso à minha frente?

Quando percebo isso, peço logo perdão e volto à contemplação.

O Pe. Howard, que trabalhava em Nova Yorque, no Brooklin, com os latinos, falou-nos, numa pregação de retiro em Mogi das Cruzes, que, na Hora Santa, se conseguirmos ficar cinco minutos de verdadeira contemplação, já ganhamos a hora toda, já valeu a pena.

Isso quer dizer que mesmo ele, com um nível de abnegação altíssimo para trabalhar naquele lugar sinistro, com tamanho grau de santificação e de apostolado genuíno, mesmo ele sente dificuldade em concentrar-se nas orações.

Pelo menos estejamos conscientes do fato de que Jesus está ali, à nossa frente! Mesmo que não sintamos nada, creiamos nisso e façamos tudo como se ele estivesse ali em carne e osso, e não em forma de pão!

Outro sacramento em que não acreditamos muito é o da penitência ou confissão. Será que realmente acreditamos que Jesus nos perdoou depois que o padre nos deu a absolvição?

Miqueias diz que Deus pisará as nossas iniquidades, e as jogará no mais fundo odo mar, ou seja, ele as esquecerá (Miqueias 7,18-19). Acreditamos ou não nisso?

Se formos perdoados, deixemos o passado pra lá e recomecemos uma vida nova! Deus é misericordioso e realmente nos perdoa!

São Paulo nos diz em Filipenses 3,13-14 que ele se esquece das coisas que passam e lança-se para as que estão à sua frente. Isaías também fala nisso em Isaías 43,18-19: “ Não lembreis coisas passadas, não olheis para fatos antigos. Eis que farei coisas novas, e que já estão surgindo: acaso não as reconhecereis”?

Estudemos melhor a doutrina da Igreja e procuremos entendê-la! Em nossos blogues e sites eu falo muito disso. Sobretudo é bom sempre conferir na Bíblia tudo o que Jesus nos ensinou, e veremos que o que ensina a nossa Igreja Católica é verdadeiro e nos conduz ao caminho da santidade. Quantas coisas bonitas ela nos mostra! Que pena que muitos passam a vida sem percebê-las!

A DEPRESSÃO DOS FAMOSOS


(Set. 2015)

Pode ser que eu esteja errado, mas penso que a depressão seja uma doença mista, ou seja, provêm em parte de algum problema no cérebro e, ao mesmo tempo, de algum problema psicológico.

Aqui vou falar algo sobre essa última causa, a psicológica.

Qualquer pessoa que tenha uma profissão ou atitude de vida que a destaque das demais, torna-se um tipo de protótipo, de modelo, que é amado e imitado por alguns e odiado e detestado por outros: cantores, artistas, professores, jogadores etc.

Pessoas desse tipo devem ser muito humildes e ter muita caridade e misericórdia de si mesmas, além da que é devida às outras pessoas. Acho que essa é a peça fundamental do desequilíbrio psicológico que causa ou faz piorar a depressão.

A pessoa famosa sabe que tem uma determinada imagem, mas é quase que cotidianamente acossada pelos seus pontos fracos ou mesmo pelas tendências normais de todos os seres humanos.

Nossa carne sempre nos lembra de que não somos anjos, mas animais, embora racionais. O próprio Apóstolo São Paulo se queixava disso: “Quem me livrará deste corpo de morte?” (Romanos 7,24). Um pouco antes desse versículo ele diz que faz o que não quer e não faz o que realmente deseja fazer (vers. 15).

Para não haver recalques e piora dos sintomas de depressão, é preciso muita humildade e confiança em Deus, é preciso aceitar-se como se é, a fim de que a sensação de que “não sou aquilo que o povo pensa que eu sou” não tome conta de nós e não se transforme em doença.

Os santos souberam magistralmente lidar com isso, pois confessavam-se sempre pecadores, embora saibamos que exageravam nessa “confissão”. E dificilmente caíam em depressão.

A solução é, pois, permanecermos com os pés no chão e nos conscientizarmos que nossa boa fama não vai automaticamente livrar-nos de pensamentos e desejos “selvagens” (como a ira, por exemplo). Somos feitos de corpo animal e alma imortal. Enquanto vivermos nesta terra, sempre estaremos recebendo os impulsos instintivos do “Irmão Corpo”, como dizia S. Francisco.Aliás, é esse o motivo pelo qual alguns santos tanto faziam penitência: para fazer calar a voz do corpo, mas eles, quando muito apenas conseguiam amainá-la. É também o motivo pelo qual não caíam em depressão embora muitos deles foram caluniados e vilipendiados pelas autoridades e mesmo pelo povo das diversas épocas. Somos o que somos diante de Deus, e nada mais! 


"NINGUÉM TIRA A MINHA VIDA"



Esta é a frase dita por Jesus em João 10,18: “Ninguém tira a minha vida, eu a dou por mim mesmo; tenho o poder de entregá-la e tenho poder de recebê-la novamente; essa é a ordem que recebi do meu Pai”.

Hoje é o domingo do Bom Pastor, de que gosto muito. Essa frase de Jesus tem um conteúdo muito profundo ao qual muitas vezes não prestamos atenção. Ele a diz logo após lembrar que ele é o bom Pastor, que conhece as ovelhas e elas o conhecem. Há vários pontos importantes para refletir:

1- Jesus sempre foi 100% Deus e 100% homem. Ele sempre teve tudo sobre controle. Ele deu a vida porque quis! Tinha poder de não se deixar prender, se quisesse. Um homem que caminhou sobre um mar revolto, que ressuscitou várias pessoas, como Lázaro, o filho da viúva de Nain, a menina, que curou cegos, paralíticos, surdo-mudos, que perdoou a tantos pecadores, não teria ele o poder de livrar-se dos que o queriam matar?

Aliás, várias vezes ele escapou de mãos que já o haviam agarrado para matá-lo, como naquela vez em que o levaram ao mais alto do templo para atirá-lo de lá para baixo.

Jesus tinha todos “em suas mãos”, sob seu poder. Não era um fantoche, ou um boneco, ou um homem que parecesse estar perdido, sem saber o que fazer: ele sabia perfeitamente o que estava fazendo. Seu objetivo principal era obedecer ao Pai, vivendo sua vida humana na mais perfeita obediência, o que significava viver o mais perfeitamente possível a vida humana, com todas as suas limitações, abdicando, como diz Filipenses 6, ao seu poder divino enquanto vivesse aqui na terra. 

Ele usou seu poder nos outros, mas não em si mesmo.

É isso que torna valiosa sua morte: ele a enfrentou livremente, para nos ensinar a obediência, para nos salvar. Ele fez o contrário dos nossos primeiros pais, Adão e Eva, que desobedeceram frontalmente a Deus.

Nossa ignorância é tanta a seu respeito, que acho que Ele ri de nós ao ver o quanto desconhecemos de sua atuação em sua vida terrena! Ele nunca deixou de ser Deus. Ele só podia morrer por nós se deixasse que o matassem. E após sua morte, ressuscitou, e está gloriosamente reinante à direita do Pai.

2- “Eu conheço minhas ovelhas e elas me conhecem” (Jo 10,14). Qual é a intensidade desse conhecimento que Jesus exige de nós? Um conhecimento superficial? Um conhecimento como a gente se conhece um ao outro? Não! Jesus pede que suas ovelhas O conheçam “Assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai”.

Pergunto: será que nós conhecemos Jesus, o Bom Pastor, com tanta plenitude quanto o Pai o conhece e Ele conhece o Pai? Sei que para nós isso é impossível, mas não para Jesus. Para Ele, tudo é possível. Só estou dizendo isto porque muitos dizem que O conhece plenamente. É importante que saibamos que ainda não O conhecemos como o Pai O conhece, e é com essa plenitude de conhecimento que Jesus quer que o conheçamos: “Conheço minhas ovelhas e elas me conhecem, assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai.”

Pedido semelhante ele faz em relação à união e ao amor: “Pai Santo(...) que eles sejam um, assim como nós somos um” (Jo 17,11). Quando chegaremos a ser unidos entre nós da mesma forma, com a mesma união que as pessoas da Santíssima Trindade são unidas? Quanto ainda nos fala para isso? Mas é justamente esse nível de amor e união que Jesus pede de nós!

3- “É por isso que o Pai me ama, porque dou a minha vida, para depois recebê-la novamente” (Jo 10,17). Ou seja: Deus ama Jesus porque Ele faz sua plena vontade. Quanto mais fizermos a vontade de Deus, mais seremos capazes de perceber o Seu amor por nós. E receberemos nossa vida novamente já aqui na terra, ao vivermos na paz celeste depois de termos “dado a vida”espiritualmente, aos irmãos, para cumprirmos a vontade do Pai, e no céu, após a nossa morte material.

Em João 14 vemos várias vezes como o Pai nos ama se fizermos sua vontade, pois como Jesus disse, “Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como eu guardei os mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor” (Jo 15,10)

4- Jesus é nosso Pastor e nos conhece plenamente, como Ele conhece o Pai. Se Ele tinha seu poder divino, mesmo ainda estando aqui na terra, quanto mais agora, que ressuscitou!

Em 1ª Samuel 16,7, quando Samuel se indignou por ter Deus escolhido como rei um fracote, Davi, ele recebeu esta resposta: “O homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração”.

Amigos (as)! Se nós, pobres mortais, muitas vezes, ao ver pessoas não-amadas ou que nunca receberam um carinho materno ou/e paterno fazerem certas maldades, nos condoemos, em vez de odiá-las, quanto mais Deus, que olha os corações e não o exterior!

Fiquemos em paz! Confiemos nele! Ele sabe e conhece o nosso passado! Deus nos conhece muito mais do que nós nos conhecemos. Ele sabe que algumas coisas que fazemos são decorrentes de uma infância perturbada, massacrada, abandonada. E isso vai entrar em sua defesa no julgamento!

Jesus nos compreende, nos ama e nos acolhe com muito amor, sejamos nós quem sejamos. Ele quer, é certo, que nós o conheçamos como Ele nos conhece. Mas, enquanto isso não acontece, despojemo-nos de nós próprios e nos coloquemos junto a Ele! Desvistamo-nos de nossa arrogância, de nossa auto-suficiência, de nossa vaidade, e coloquemo-nos confiantes em seus braços, como ovelhas sem defesa, porque, como diz Pedro 5,7, “ Lançai sobre o Senhor todas as vossas preocupações, porque Ele cuida de vós!”.


VIVER O DIA DE HOJE




Um dos aspectos da simplicidade é viver o dia de hoje, o presente. Não se preocupar com o passado, que não mais dominamos, nem com o futuro, que desconhecemos porque ainda não existe, e depende de minhas decisões de agora.

Santa Faustina Kowalska e uma legião de santos, incluindo o Papa João XXIII, cultivavam essa espiritualidade do "Só por hoje", aliás, muito utilizada na cura da dependência química. Eu acho magistral a interpretação que dá, a esse assunto, S. Paulo Apóstolo, em Efésios 4,17-24 e Filipenses 3,13-14.16:

"(...) Não andeis(...) na futilidade dos vossos pensamentos, com entendimento entenebrecido, alienados da vida de Deus pela ignorância e pela dureza dos seus corações(...)";

"(Em Jesus) fostes ensinados a remover o vosso modo de vida anterior - o homem velho, que se corrompe ao sabor das concupiscências enganosas - e a renovar-vos pela transformação espiritual da vossa mente, e revesti-vos do Homem Novo, criado segundo Deus na justiça e na santidade da verdade."

(Filipenses) "Esquecendo-me do que fica para trás e avançando para o que está diante, prossigo para o alvo, para o prêmio da vocação do alto, que vem de Deus em Cristo Jesus. Entretanto, qualquer que seja o ponto a que chegamos, conservemos o rumo!"

É bom lembrar, aqui, que "esquecer" não é tirar da mente, mas sim, não se apegar ao passado, perdoar-se, sentir-se perdoado por Deus, não depender do passado para viver e ser feliz. Precisamos ter consciência de que podemos, sim, romper com tudo o que ainda estiver nos prendendo ao passado, que nos impede de prosseguirmos a caminhada. Diz Provérbios 23,26:

"Meu filho, dá-me teu coração e que teus olhos gostem dos meus caminhos!"

De fato, não dá certo recalcarmos o nosso passado, querer esquecê-lo: isso faz piorar as coisas. É preciso que aprendamos a assumi-lo e a superá-lo, mas sem nunca negá-lo. É da negação do passado que surgem os problemas psicológicos. Temos que enfrentar o que somos agora, pois somos o que preparamos pelo nosso passado. Como diz Jesus, colhemos o que plantamos.

A simplicidade e pobreza de vida se refletem nesses atos de humildade, quando com muita sinceridade confirmamos o que realmente somos, mas, pedindo perdão dos nossos pecados, recomeçamos uma vida nova, nos braços do Pai/Mãe Deus. 


Aceitar os "estragos" do passado, repará-los, e viver apenas no presente, num presente em que nos realizamos como pessoa humana, cristã, como filhos de Deus.

Aqui se aplica bem a simplicidade e a pobreza, no sentido de vivermos plenamente em Deus, numa dependência divina, ao contrário do que fez Adão e Eva e Lúcifer. Eles quiseram viver por si mesmos; nós queremos viver em Deus, com a ajuda de Deus, confiando em sua onipotência e misericórdia, em sua divina sabedoria que nada nos faltará, que estamos caminhando pelos seus caminhos.

Maria, Mãe dos caminheiros, nos ajudará a "fazer tudo o que Jesus disser", nos ajudará a sermos, como ela, humildes servos e servas do Senhor, humildes eremitas de Jesus Misericordioso.

UM DIA DE DESERTO NA PRISÃO


Muitas coisas que escrevo são baseadas nas experiências de um amigo preso, já no semiaberto, com quem me correspondo.

No domingo, dia de visitas, em que os que não as tem são obrigados a melar no sol ou ficarem apertados sob alguma cobertura, ele resolveu fazer um dia de deserto conforme o costume das fraternidades Jesus Cáritas, na prisão onde mora.

Em primeiro lugar, não há silêncio na prisão. No pátio, entre as celas, vários rádios “berrando” e, ainda o pior, fora de sintonia, uma chiadeira danada. É dia de visita, calor forte, pessoas amontoadas. Os que estão recebendo visitas recebem-nas nas celas, que foram preparadas logo de manhãzinha para isso.

Para conseguir concentrar-se, fez o que Jesus fez em Lucas 9,18: “Estando Jesus rezando a sós no meio dos discípulos”... Jesus aprendeu a isolar-se mesmo permanecendo no meio da multidão. Meu amigo sempre tenta fazer o mesmo.

Enxugando o suor e tentando esquecer-se do rádio, ele começou a meditação. Olhou em volta: poucos são gordos. Os colegas dele da rua são quase todos gordos, alguns obesos. Na prisão a alimentação é suficiente apenas para o sustento, mas não para engordar.

Depois, olhando as muralhas que cercam o recinto, a aglomeração de presos fugindo do sol, e um pequeno jardim com várias palmeiras e grama, que ninguém usa (é vedado aos presos e não é utilizado pelos funcionários), ele lembrou-se do nosso amigo comum D. Edson Damian, de São Gabriel da Cachoeira, que naquele momento talvez estivesse respirando o ar puro da floresta amazônica e sentiu uma pontinha (ou uma pontona?) de inveja.

Nesse momento o funcionário foi pegar um preso doente, numa cadeira de rodas. São as últimas vezes que eles se viam, pois o câncer já estava espalhado pelo intestino, sua pele amarelada. O doente não era católico, mas estava bem preparado para o “pior”. De seu banco ele pediu a Deus que perdoasse os pecados daquele rapaz (que morreu cerca de um mês depois), que logo saiu de vista em direção ao hospital. Ele tinha certeza de que Deus havia ouvido o seu pedido de perdão por aquela pessoa. Jesus disse que se perdoarmos qualquer pessoa aqui na terra, ele também perdoa lá no céu!

Depois que o colega dele saiu de cena, olhou para os lados e viu quantos idosos e doentes estavam ali presos. Que injustiça! O que ele podem fazer de mal lá fora, se estão incapacitados até de andarem? Vão ficar na prisão até morrer? Aquele rapaz que acabara de ir para o hospital, dias depois, conseguiu liberdade por seis meses para tratamento de saúde, mas morreu em casa uns 15 dias depois.

Vi um artigo do Pe. Valdir, da pastoral carcerária estadual, que não resultou em nada. A pastoral carcerária parece estar como um zero à esquerda. Não é por culpa deles! É o sistema parcial e injusto em que vivemos. Alguns velhos não andam: se arrastam! Alguns nem conseguem sair na saída temporária!

Outros perderam o contato com suas famílias, que simplesmente os abandonaram na prisão e mudaram de endereço para despistá-los. Tudo bem, praticaram algum crime grave, mas... por acaso, a prisão não muda ninguém??? Meu amigo diz sempre que a prisão o ajudou muito a recomeçar uma vida nova, e muitos outros lhe disseram o mesmo, num círculo bíblico que sempre fazem. Outros já estão presos 24,25 anos! O meu amigo mesmo já passou dos 12 anos de prisão.

A miséria humana mostrou-se com toda a sua crueza aos olhos do meu amigo que fazia o dia de deserto. Havia, pelo jeito, bastante material para isso. Ele sentiu na pele a imbecilidade humana, o materialismo ateu que se impregna até nos que se dizem cristãos. Sentia-se impotente diante daquele quadro. Um mundo bem diferente dos que os padres estão acostumados aqui fora, incluindo as paparicações e coisas parecidas, e tantas futilidades, tantas “picuinhas” em que nos perdemos.

Meditou, então, sobre a fragilidade humana, o mesmismo, as ambições materiais e de poder,, na triste realidade da morte, rondando o amigo canceroso.

Olhou ainda vários presos crochetando rapidamente, como que fossem “tirar o pai da forca”. Os homens presos crochetam de modo diferente do que as mulheres: eles cobrem o cabo da agulha com madeira e a seguram como uma chave de fenda. E fazem tapetes e jogos pra banheiro e para outras dependências muito bonitos! As mulheres apreciam muito o crochê masculino.

Não gostou de ver um coitadinho de um neném chorando no colo do pai. Que lugar para se trazer uma criança! Meu amigo acha que as mães deveriam esperar que crescessem um pouco antes de trazê-los! Afinal, quase todos ali saem cinco vezes por ano para suas casas, num total de 28 a 30 dias!

Continuando o seu dia de deserto, olhou para o céu e sentiu um desejo profundo de viver uma vida simples quando sair da prisão, que espera ser no próximo ano. Simples e pobre, e cuidar de não engordar como os aqui de fora.

Um tédio o invadiu, ao mesmo tempo em que o barulhento gerador a diesel, de energia, começou a funcionar em lugar dos rádios. Barulho ensurdecedor! Um “tedium vitae” o invadiu. Que vida besta aquela! Quanta ilusão! Quanto tempo jogado no lixo!

Aí ele lembrou-se do que o Cardeal Van Thuan sentiu na primeira semana dos seus 13 anos de prisão, nove deles na solitária: “Eu sirvo a Deus, e não às suas obras”!

Colocou-se, então, diante de Jesus e tentou entender tudo aquilo. O Pe. Teilhard de Chardin fez a mesma experiência no deserto verdadeiro e percebeu que, mesmo estando com a Eucaristia ali dentro do bolso de sua camisa, não se sentia tão unido a Jesus como deveria. O meu amigo sentiu-se como se estivesse segurado nas mãos, com todos aqueles problemas, uma nuvem de fumaça e nada mais.