domingo, 21 de maio de 2017

ANGÉLICO





Luíza fazia crochê na sala, ao lado de seu esposo Antônio, que lia o jornal do dia. O filho deles, Luís, dormia em seu quarto. Havia chegado bêbado, de madrugada, e aparentemente drogado. Os pais conversaram sobre isso. D. Luíza disse que estava rezando muito para o Anjo da Guarda dele, a fim de tirá-lo dessa vida maluca que ele levava. O pai, Sr. Antônio, também disse que rezava nessa intenção.

Sobretudo pediam a Maria que intercedesse por ele. Só mesmo a oração poderia mudá-lo.

Algum tempo depois, Luís levanta-se, beija o rosto da mãe, cumprimenta o pai e senta-se entre eles, cabisbaixo.

- Como é que eu cheguei aqui ontem? Só me lembro que desmaiei!

-Você quer dizer “hoje”, não é, Luís? – disse-lhe o pai. Foi um seu amigo. Aliás, ele me ajudou a dar um banho em você, pois nem se via seu rosto, de tanto barro. Você estava todo vomitado!

- Meu Deus! – disse Luís. Mas... que amigo é esse?

- Disse chamar-se Angélico. Ele me ajudou porque você estava praticamente desmaiado, e vomitou mais ainda no banheiro. Luís, você precisa deixar essa vida!

- Pai, eu não conheço ninguém que se chama Angélico!

Um silêncio inundou a sala.

- Ele é negro e tem mais ou menos sua idade. Disse também que nem você sabe disso, mas ele é o seu melhor amigo.

Luís olhou para o nada, pensativo; “Quem será esse cara?”

Antônio e Luíza se entreolharam e fizeram um sinal com os ombros, como quem diz: “deixa pra lá”.

Luís foi à cozinha tomar um lanche, pois não estava com vontade de comer a comida do almoço. Seus pais se aprontaram e saíram fazer umas compras.

-Luís, podemos ir tranquilos? Você não vai fazer nenhuma besteira?

-Não. Podem ir tranquilos!

Após saírem, Luís vai à sala com um copo de suco, após haver comido um lanche. Estava pensativo a respeito do tal amigo. Nisso alguém bate à porta. Ele atende e é o Angélico.

-Você que é o Angélico?

-Sim. Podemos conversar?

Luís acena que sim e oferece-lhe um lugar no sofá.

-Afinal, quem é você? Eu não me lembro de que seja o meu melhor amigo. Se nem nos conhecemos!

- Luís, por enquanto eu gostaria de não lhe falar sobre isso. Peço sua paciência e compreensão. Eu apenas quero ajudá-lo. Você está precisando de ajuda, certo?

-Certo!

- Então, tenha paciência, que no tempo certo você vai saber melhor quem eu sou.

-Tudo bem!

-Em primeiro lugar, aqueles com quem você estava ontem são mais seus inimigos que amigos. Você deveria deixar de estar com eles!

-Deixa disso! Eles são os meus “parsas”

-Se fossem, teriam trazido você!

-Por que você diz isso?

-Seu pai não lhe disse que você voltou nu para casa?

O rapaz assustou-se.

-Nu? Como assim?



-Seus “parsas”, como você diz, tiraram sua roupa e seu tênis e os deram ao cara que lhe dera a droga, como parte de pagamento.

Depois de um momento de silêncio, Luís caiu na real:

-Pôxa! Eles fizeram isso?

-Fizeram! Eles não gostam de você, Luís! Querem só o seu dinheiro e são capazes dessas e de outras baixarias para obterem o que querem!

-Angélico, não sei o que dizer. Gosto de usar drogas. Elas me acalmam, me fazem bem!

-Fazem bem? Eu não acho que aquilo em que você se tornou ontem é um “bem”. Será que isso vale a pena?

- Sem elas não consigo viver!

-Luís, você não nasceu viciado!

Outro tempo de silêncio.

-Você precisa orar, rezar mais. A nossa força vem da oração. Sem ela, não há como deixar as drogas ou qualquer outro tipo de mal.

-Eu rezo!

-Muito pouco, quase nada.

-Como é que você sabe?

Angélico fica em silêncio e Luís se lembra do que ele dissera no início.

-Bem... deixa pra lá!

-Luís, você ia à igreja e rezava bastante, há alguns anos atrás!

-Até isso você já ficou sabendo?

_Depois você abandonou Deus e a comunidade, e começou sua vida de viciado. Você rezava muito ao seu Anjo da Guarda.

-É... Eu rezava mesmo. Ele era como meu amigo invisível.

-E era mesmo, como é ainda seu amigo invisível.

-Como era mesmo? Santo Anjo do Senhor... (e para)

Angélico conclui a oração e Luís o acompanha.

-Eu não acredito mais nos padres! Tudo besteira! Tudo mentira! Percebo muitas incoerências entre os padres e mesmo entre os que participam da comunidade.

- As incoerências dos padres e leigos militantes não anulam o ensinamento da Igreja! É como um professor que mostra aos alunos o que lhes pode prejudicar na vida, mas não pratica aquilo. Por ele não praticar não significa que o que ele ensina é mentira.

O silêncio mais uma vez reinou na sala.

-É... A gente inventa mesmo muitas desculpas. Há algumas pessoas boas entre as que eu conheço.

Angélico disse, então, o nome de algumas pessoas conhecidas de Luís que eram verdadeiras no que faziam e falavam.

-Mas como você sabe disso?

Angélico explicou que tinha um tipo de dom de perceber isso nas pessoas.

-E lhe digo ainda mais: Suas orações daquele tempo e as de seus pais foram ouvidas por Deus! Mas vai lhe acontecer algo que o deixará prostrado, a ponto de desanimar novamente, no começo, mas, se você perseverar na oração, começará a nascer de dentro de você uma força que você nunca antes imaginou existir dentro de si. Uma coisa eu lhe digo: tanto agora como nesse tempo de infortúnio que lhe sobrevirá, nunca deixe a oração. E recomece a rezar pelo seu Anjo da Guarda! A oração afugenta nosso inimigo!

- E quem é nosso inimigo? O demônio?

-Não só ele. Há muitos inimigos no nosso dia a dia. Às vezes nem é preciso o demônio para nos levar ao inferno. Nós mesmos procuramos o caminho sozinhos!

Luís cobre o rosto com as mãos, por uns instantes, e quando ergue a cabeça não vê mais o amigo. Olha a cozinha, o quarto, e fica assustado. Não havia percebido que tinha saído. Talvez vendo-o com as mãos no rosto, deixara-o sozinho para que meditasse um pouco! Mas chegou a pensar: “Será que eu estava tendo um tipo de “delirium tremens”? Sentado, encosta a cabeça no respaldo do sofá e pensa: “O que será de mim”? E adormece.

Eram seis horas da tarde quando ele acorda, assustado. Estivera dormindo desde às 2 horas! E seus pais, que ainda não haviam voltado?

Estava para telefonar para algum lugar, quando tocam a campainha. Era um senhor, que se identifica como um policial, e lhe diz que os pais de Luís haviam sofrido um acidente e estavam no hospital, muito mal. Pede que o acompanhe. Luís sai como está, apenas pegando a chave e fechando a porta da casa.

Dias depois seus pais morrem. Ele fica desesperado. Cai mais ainda nas drogas, e até herda a casa e uma quantia boa de dinheiro, mas gasta tudo com drogas e orgias. Acaba ficando sem nada, na rua da amargura. Na rua, mesmo, sem metáfora, porque não tinha onde morar. Torna-se mendigo, morador de rua.

Certo dia estava ele sentado numa calçada, sozinho, quando de repente vê o Angélico sentado ao seu lado, bem vestido, com a mesma roupa daquele dia, com a mesma fisionomia. Já se haviam passado muitos meses.

-Tudo bem, Luís?

Luís olha para ele assustado e o xinga:

-Tudo bem? Como tem coragem de me dizer isso? Você esteve aquele dia em casa só para vaticinar desgraças na minha vida! Quem é você, afinal?

Angélico não dá a mínima para o que ele dissera.

-Luís, você se descuidou muito! Seus pais parece que seguravam um pouco sua vida! Você piorou muito! Desistiu de viver!

- Eu me perdi nas drogas, no jogo, nas orgias... Mas como é que eu consigo ser tão sincero com você? Nem para mim admito tudo isso!

-Coloque isto em sua cabeça: você não consegue mentir para mim. Não queira saber o porquê. Um dia você vai entender.

- Meus amigos me abandonaram, pois, como você mesmo disse, estavam comigo apenas por causa do dinheiro! Minha namorada me largou, por causa das minhas orgias com outras.

Angélico abraça Luís, que encosta a cabeça em seu ombro, e começa a chorar, soluçando. Depois de um tempo, olha para o amigo e lhe implora: “Angélico, me ajude”!

-Luís, esse tempo todo eu só estava esperando essas palavras suas: dando permissão para que eu o ajudasse. Sem essa permissão, Deus não pode ajudar a ninguém, pois estaria se intrometendo em nossa vida, e ele preza muito nossa liberdade, o nosso livre-arbítrio! Mas saiba disso: seja sempre sincero e converse muito com Deus. Ele é seu amigo e nunca vai abandoná-lo. Nem eu. Quer rezar comigo?

-Quero, mas não sei nem como começar.

- Diga a Deus o seu nome!

-Mas ele já sabe!

_Diga!

_Meu Deus, eu me chamo Luís.

-Agora fale-lhe sobre seu problema.

-Deus, eu sou viciado em drogas, em álcool, em sexo, sou órfão, pobre, vivo na miséria, gastei todo o dinheiro que meus pais ajuntaram com tanto sacrifício, estou abandonado, só o Angélico veio falar comigo, mas até ele me abandonou nesse tempo todo! Sou pecador, e me envergonho de todos os pecados que faço, pois trazem muita angústia e dor no coração, muito sofrimento. Peço perdão de todos eles e gostaria de mudar de vida!

-Agora peça o que você quer de Deus

-Meu Deus, peço a graça de ser feliz, e de receber o vosso perdão. (E cobre o rosto com as mãos, chorando).

Quando vai novamente falar com o amigo, ele não está mais lá. Pensa: “Que mania de sumir desse jeito! E agora? Até ele me abandonou!” Estou mais tranquilo, mas sinto vontade de usar droga. O dinheiro acabou. Vou roubar algum e comprar droga...

Chega um homem e ele pensa em roubá-lo, quando ele lhe pergunta:

-Você que é o Luís?

Vendo-se conhecido, desiste de roubar.

-Sim, por que? Como sabe o meu nome?

-Um rapaz chamado Angélico pediu-me para ajudá-lo.

-Você o viu?

-Não. Ele me telefonou.

O homem senta-se ao lado do rapaz.

-Meu nome é Juan, sou chileno e dirijo uma casa de recuperação. Está disposto a tentar a recuperação? Você precisa querer para dar certo. Obrigado ninguém consegue manter muito tempo a sobriedade.

-Já que o meu amigo lhe telefonou;;;

-Ele é seu amigo? Eu achei estranho o telefonema dele!

-Estranho? Por que?

-O nosso telefone é rural, e está sem linha! Só recebemos o telefonema dele. Ninguém consegue falar com a casa. Depois, a outra coisa estranha é que ele me deu a hora exata que eu deveria vir para cá me encontrar com você.

-E a que horas ele telefonou?

-Esse é o outro ponto estranho: Foi ontem à noite! Como ele saberia que você estaria aqui, sóbrio, a esta hora?

Fizeram silêncio, tentando entender, mas desistiram.

-Você vem comigo, Luís?

-Vou.

Pondo a mão em seu ombro, Juan lhe disse:

-Você não vai se arrepender, Luís. Lá, nós formamos uma família! Deus ouviu suas orações!

-É... e eu acho que o meu anjo da Guarda também!

-É? Você reza para ele sempre?

-Rezava antes, mas eu lhe chamei algumas vezes para ajudar-me. E acho que ele está me ajudando.

-Você acha que é o Angélico?

-Acho. Esse cara é muito misterioso! Só tenho dúvida porque ele é negro!

-E por que necessariamente um Anjo da Guarda deveria ser branco?

-É...Por que, não é?

Um ano mais tarde chega o dia da “formatura” de Luís na casa de recuperação. Juan fala:

-Tivemos horas muito difíceis, mas com graça de Deus, ajudamos Luís a se recuperar. Não é, Luís?

-É verdade. Sozinho eu nunca teria conseguido. Primeiramente, devo agradecer ao Angélico, que acho que me está ouvindo agora, e que eu considero o meu Anjo da Guarda. Ele simplesmente desapareceu, mas, por mais esquisito que seja, eu ainda sinto sua presença, sempre. Deus nunca nos abandona quando lhe pedimos, sempre nos socorre. Ele é a Divina Misericórdia! Ele não recusa ninguém! Ele toma a iniciativa de se achegar a nós. Cabe a nós aceitarmos, respondermos ao seu amor.

“Tudo posso naquele que me conforta”, diz S. Paulo Apóstolo. Tudo poderemos fazer se estivermos “atrelados” em Deus, que, como diz Efésios 3,20, “É todo-poderoso para realizar por nós, em tudo, muito além, infinitamente além do que pedimos ou possamos”.

“Sei que não é fácil. Sempre terei vontade de provar um baseado, ou mesmo alguma droga pior. Mas sei, também, que tudo o que pedirmos a Deus ele nos concede, não talvez no modo como pedimos, mas do jeito dele, que é melhor. E como diz Henri Delassus, “Cada dia que um cristão passa sobre a terra é um resumo de sua vida”. Se conseguirmos ficar sóbrios por um dia, o dia de hoje, o conseguiremos por toda a nossa vida. Agradeço, portanto, a todos os que me ajudaram e ainda vão continuar a me ajudar. Quanto a mim, vou procurar passar adiante o eu aprendi e tentar resgatar outras pessoas do vício”.

E assim termina nossa história. Eu acredito no Anjo da Guarda, e o meu tem nome, que eu lhe dei. Você também pode dar nome ao seu Anjo. Na vida eterna, saberemos qual é o seu verdadeiro nome. Por enquanto, é esse que lhe demos.

Os anjos estão a serviço do Deus Altíssimo e sua missão é oferecer-lhe tudo o que seus protegidos faz de bom. Jesus também teve na terra seu Anjo da Guarda, o que o confortou na agonia do Getsêmani.



Os anjos são tão celestes que é impossível que se mostrem a nós como são. São muito belos, e quando aqui aparecem, usam a aparência humana. Vale a pena pedirmos a eles que nos ajudem a recomeçar a nossa vida! O céu nos espera!



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