domingo, 21 de maio de 2017

O PINTASSILGO


Meu pai criava passarinhos e, entre eles, um pintassilgo que alguém lhe dera. Era muito bonito e cantava maravilhosamente. Entretanto, estava muito solitário. Meu pai então teve a ideia de colocá-lo para criar com uma canária. Deu certo! Após algum tempo, nasceram três pintagóis machos, que é o resultado do cruzamento desses dois tipos de passarinhos. Os machos cantam uma mistura de pintassilgo com canário, mas as fêmeas são estéreis: não criam.

Durante a chocagem, várias vezes ele tratava da fêmea no próprio ninho, para ela não abandonar os ovos. Quando ela saía para suas necessidades, ele ficava no ninho, para não gorar nenhum ovo. Eu ficava admirado de ver tanta dedicação assim numa simples avezinha! Ele também ajudava a fêmea a tratar dos filhotinhos. Como era bonito ver isso! É um exemplo que pode ser visto de dois modos diferentes: por um lado, os pais que tratam bem dos filhos. Por outro lado, os que os abandonam ou os tratam mal.

Sempre que me lembro do pintassilgo, lembro-me também de um amigo meu que pegou três meninos para acabar de criar. Foram abandonados pela mãe. O mais novo, quatro anos. O mais velho, 8 anos. O “seu” Arlindo, pai deles, pedreiro, conseguiu cuidar deles até que teve dois derrames quase seguidos, que o deixaram de cama. Conseguiu, a muito custo, um barraquinho na favela para morar. Lugar horrível! Bem em frente a um pequeno córrego transformado em esgoto, do qual saíam muitos animais (ratos) e insetos comuns e os peçonhentos (pernilongos, baratas, escorpiões, moscas, aranhas).

Sr. Arlindo vivia na cama e era cuidado por um ou outro vizinho, e pelo filho mais velho, o Clóvis. Quando este completou 13 anos, esse meu amigo, então com 40 anos, os encontrou por acaso, quando visitava um outro amigo doente: Clóvis cozinhava, no pequeno espaço diante do barraco, numa lata em cima de dois tijolos, num fogo feito com gravetos, tudo junto: arroz, feijão e batata. Aquilo lhe partiu o coração. Não pensou duas vezes: entrou, conversou com o Sr. Arlindo, que lhe disse ter uma irmã que morava numa cidade próximo a Itaí.

Nos dias seguintes, várias providências foram tomadas: o Sr. Arlindo, enviado à casa de sua irmã; O filho mais novo, agora de 9 anos, foi dado a uma família vizinha desse meu amigo. Os outros três mais velhos (10,12 e 13 anos) ficou com esse meu amigo.

Eles cresceram trabalhando em pequenos serviços adequados à idade, e atualmente são casados, um deles, o Clóvis, tem um filho maravilhoso, têm muita saúde e alegria.

Vejam que coisa: A mãe deles apareceu depois de 25 anos, quando o mais novo já tinha 29 anos. Esse mais novo acolheu a mãe e de vez em quando vai à sua casa; os outros, entretanto, preferem manter-se à distância, embora não a rejeitaram. Perderam aquele elo que os ligava naturalmente à mulher.

O sr. Arlindo morreu, já no seu quarto derrame, mas era feliz em saber que seus filhos estavam bem cuidados.

Quanto ao meu pintassilgo, meu pai soltou-o logo após a ninhada ficar adulta e cantar maravilhosamente. Nunca mais nós o vimos. Estará, na certa, com uma outra canária, ou mesmo com uma pardal, procriando e tomando conta de seus filhotes. Êta passarinho bom! Quisera que todos os pais fossem desse jeito!

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